Depois da pandemia, essa discussão ganhou ainda mais força. Empresas, profissionais e consumidores foram obrigados a acelerar mudanças que talvez levassem anos para acontecer. A tecnologia, nesse contexto, passou a ser vista não apenas como ferramenta de produtividade, mas como instrumento de adaptação, sobrevivência e transformação da vida das pessoas.
Para entender melhor esse cenário, o Portal da CBN Campinas conversou com Samuel Leite, jornalista, fundador da Digitale, consultoria digital focada em marketing digital e LinkedIn, que tem como objetivo ajudar profissionais e empresas a serem mais competitivos, relevantes e a construírem autoridade na plataforma.
Samuel também é colaborador da CBN Campinas e autor do podcast Transformação Digital CBN, exibido nos intervalos da programação e todos os sábados, às 10h. Além disso, é fundador da Mercado Sonoro, produtora de podcasts corporativos responsável, entre outros projetos, pela produção de podcasts da CBN Campinas.
Nos últimos anos, Samuel tem acompanhado de perto as principais tendências de inovação, tecnologia e comportamento, inclusive em eventos internacionais como o South by Southwest, que começa nesta semana em Austin, no Texas. Depois de cobrir as duas últimas edições do evento, ele se prepara agora para participar de sua terceira edição, onde vai transmitir os principais momentos deste evento aqui para a CBN Campinas.
Na entrevista, ele fala sobre transformação digital, inteligência artificial, futuro do trabalho, mercado de desenvolvimento e os impactos da tecnologia no dia a dia das pessoas.
Portal CBN Campinas: Quando falamos em transformação digital, muita gente ainda pensa apenas em aplicativos, redes sociais ou ferramentas tecnológicas. O conceito é mais amplo do que isso?
Samuel Leite: Sem dúvida. Transformação digital não é simplesmente colocar tecnologia dentro de uma empresa ou criar um aplicativo. Ela envolve uma mudança de mentalidade. É sobre usar a tecnologia para repensar processos, modelos de negócio, formas de relacionamento, comunicação e entrega de valor.
O erro mais comum é tratar tecnologia como fim. Na verdade, tecnologia é meio. O centro da transformação digital continua sendo a pessoa: o cliente, o colaborador, o consumidor, o cidadão. A pergunta principal não deve ser “qual tecnologia vamos usar?”, mas “qual problema queremos resolver?” ou “que experiência queremos melhorar?”.
Portal CBN Campinas: A pandemia acelerou esse processo?
Samuel Leite: Acelerou de forma muito intensa. Algumas mudanças que estavam previstas para acontecer em cinco ou dez anos foram antecipadas em poucos meses. Empresas que ainda resistiam ao trabalho remoto precisaram adotá-lo. Pequenos negócios tiveram que aprender a vender pela internet. Escolas, profissionais liberais, consultórios, restaurantes e prestadores de serviço foram empurrados para uma nova realidade.
A pandemia mostrou que a tecnologia não é mais um diferencial reservado a grandes empresas. Ela se tornou uma condição de sobrevivência. Ao mesmo tempo, também ficou claro que não basta ter acesso à tecnologia. É preciso saber usar, interpretar, aplicar e transformar esse acesso em valor real.
Portal CBN Campinas: Em 2017, 2018 e 2019, antes da pandemia, essa transformação já estava em curso?
Samuel Leite: Sim, ela já estava acontecendo. O que mudou foi a velocidade. Entre 2017 e 2020, vimos um amadurecimento muito grande de temas como inteligência artificial, automação, dados, plataformas digitais, economia dos criadores, trabalho remoto e novas formas de consumo.
O que antes parecia distante começou a entrar na rotina das pessoas. Pedir comida pelo aplicativo, fazer uma reunião por vídeo, consumir conteúdo sob demanda, usar assistentes virtuais, comprar online, estudar pela internet e trabalhar de qualquer lugar deixaram de ser comportamentos de nicho. Passaram a fazer parte da vida comum.
A pandemia apenas escancarou algo que já estava em movimento: a tecnologia estava redesenhando o cotidiano.
Portal CBN Campinas: E como isso transforma o dia a dia das pessoas?
Samuel Leite: Transforma em várias camadas. Primeiro, na forma como nos comunicamos. Hoje, qualquer pessoa pode produzir conteúdo, construir uma audiência, participar de uma conversa pública e se posicionar profissionalmente.
Depois, transforma o trabalho. A relação com escritório, horário, produtividade e colaboração mudou. Muitas empresas perceberam que presença física não é necessariamente sinônimo de entrega. Isso abre espaço para modelos mais flexíveis, mas também exige mais autonomia, disciplina e maturidade.
Também transforma o consumo. As pessoas pesquisam mais, comparam mais, confiam em avaliações, buscam recomendações e esperam respostas rápidas. A jornada de compra ficou mais digital, mais informada e menos linear.
E, por fim, transforma a própria percepção de carreira. Profissionais que entendem tecnologia, dados, comunicação e posicionamento tendem a ganhar mais espaço, mesmo que não sejam da área de tecnologia.
Portal CBN Campinas: Quando se fala em inteligência artificial, ainda existe muito medo. Esse medo faz sentido?
Samuel Leite: Faz sentido em parte. Toda grande mudança tecnológica gera insegurança, e isso é natural. A inteligência artificial tem um impacto profundo porque mexe com algo muito sensível: a capacidade humana de produzir, analisar, escrever, prever, recomendar e tomar decisões.
Mas o debate não pode ser simplificado. A pergunta não é apenas “a inteligência artificial vai substituir pessoas?”. A pergunta mais importante é: “como as pessoas vão trabalhar melhor com inteligência artificial?”.
A IA deve substituir tarefas repetitivas, operacionais e previsíveis. Mas também deve ampliar a capacidade de profissionais que souberem usá-la com repertório, senso crítico e responsabilidade. O risco maior não é a tecnologia em si. É a falta de preparo para lidar com ela.
Portal CBN Campinas: Isso muda o mercado de desenvolvimento e tecnologia?
Samuel Leite: Muda bastante. O mercado de desenvolvimento tende a continuar crescendo, mas com uma exigência diferente. Não basta saber programar. O profissional de tecnologia precisa entender problema de negócio, experiência do usuário, dados, segurança, produto e impacto social.
A tecnologia está deixando de ser uma área isolada dentro das empresas. Ela passa a atravessar todas as áreas. Marketing, vendas, recursos humanos, financeiro, atendimento, logística, educação: tudo passa a depender de algum nível de inteligência tecnológica.
Isso cria oportunidades enormes para desenvolvedores, designers, analistas de dados, especialistas em automação, profissionais de produto e também para quem consegue traduzir tecnologia para o mundo dos negócios.
Portal CBN Campinas: E o futuro do trabalho? Para onde estamos indo?
Samuel Leite: Estamos indo para um modelo mais híbrido, mais flexível e mais orientado a competências. O diploma continua importante, mas ele deixa de ser o único marcador de valor. As empresas vão olhar cada vez mais para capacidade de aprender, resolver problemas, colaborar, comunicar e se adaptar.
O profissional do futuro não é necessariamente aquele que sabe tudo. É aquele que aprende rápido, desaprende quando necessário e consegue combinar conhecimento técnico com sensibilidade humana.
Também acredito que a marca pessoal vai ganhar muita relevância. Plataformas como o LinkedIn mostram isso claramente. Profissionais que sabem compartilhar conhecimento, construir autoridade e se conectar com o mercado passam a ter mais oportunidades.
Portal CBN Campinas: O LinkedIn entra nesse contexto como ferramenta de transformação profissional?
Samuel Leite: Sim. O LinkedIn deixou de ser apenas um currículo online. Ele se tornou uma plataforma de reputação, relacionamento, conteúdo e geração de oportunidades.
Para empresas, é um canal estratégico de posicionamento, especialmente no mercado B2B. Para profissionais, é uma vitrine de competência e autoridade. Quem usa bem o LinkedIn consegue participar de conversas relevantes, demonstrar conhecimento, criar conexões qualificadas e ampliar sua presença no mercado.
Mas, de novo, não é sobre postar por postar. É sobre ter clareza de posicionamento, consistência e contribuição real para a rede.
Portal CBN Campinas: Você também atua com podcasts corporativos. Como esse formato entra na transformação digital?
Samuel Leite: O podcast é um ótimo exemplo de como a transformação digital não acontece apenas pela tecnologia, mas pela mudança de comportamento. O áudio ganhou espaço porque acompanha a rotina das pessoas. Ele pode ser consumido no carro, durante uma caminhada, no trabalho ou em casa.
No caso dos podcasts corporativos, existe uma oportunidade muito importante para marcas e instituições: construir autoridade, aprofundar conversas e criar relacionamento com públicos estratégicos. Diferente de outros formatos mais imediatos, o podcast permite contexto, narrativa e proximidade.
Na Mercado Sonoro, a gente trabalha justamente com essa visão. O podcast corporativo não deve ser propaganda disfarçada. Ele precisa ter pauta, relevância editorial, consistência e respeito ao tempo de quem escuta.
Portal CBN Campinas: Você está indo para mais uma edição do South by Southwest, em Austin. O que esse evento ajuda a antecipar?
Samuel Leite: O South by Southwest é um dos eventos mais interessantes do mundo porque mistura tecnologia, inovação, comportamento, cultura, comunicação, música, cinema e negócios. Ele não olha apenas para a tecnologia pela tecnologia. Ele tenta entender como a tecnologia muda a sociedade.
Nas duas últimas edições que acompanhei, ficou muito claro que as discussões mais importantes não estavam apenas nas ferramentas, mas nos impactos: privacidade, ética, inteligência artificial, futuro do trabalho, diversidade, cidades inteligentes, consumo, saúde, educação e novas formas de relacionamento.
Agora, indo para minha terceira edição, a expectativa é observar quais tendências estão amadurecendo e quais começam a ganhar força para os próximos anos.
Portal CBN Campinas: Quais temas você espera encontrar com mais força nesta edição?
Samuel Leite: Inteligência artificial, sem dúvida. Também acredito que veremos muitas discussões sobre dados, privacidade, saúde digital, novas experiências de consumo, plataformas, futuro do trabalho e o papel das empresas em um mundo mais conectado.
Outro ponto importante é a responsabilidade. Durante muito tempo, o discurso da inovação foi muito encantado: tudo parecia possível, rápido e positivo. Agora, estamos entrando numa fase mais madura. A sociedade começa a perguntar: inovação para quem? Com quais impactos? Com quais limites? Com quais responsabilidades?
Essa talvez seja uma das grandes viradas do debate tecnológico.
Portal CBN Campinas: Campinas e região estão preparadas para esse movimento?
Samuel Leite: Campinas tem uma vocação muito forte para tecnologia, inovação, pesquisa, indústria e empreendedorismo. A região tem universidades importantes, centros de pesquisa, empresas de base tecnológica e um ambiente empresarial bastante relevante.
Mas o desafio é transformar potencial em cultura digital mais ampla. Não basta ter empresas inovadoras. É preciso que pequenos e médios negócios, profissionais, escolas e instituições também consigam acessar esse movimento.
A transformação digital não pode ser um privilégio de poucos. Ela precisa chegar ao comércio local, aos prestadores de serviço, aos profissionais autônomos, às empresas familiares e aos jovens que estão entrando no mercado.
Portal CBN Campinas: Para quem ainda se sente distante desse universo, por onde começar?
Samuel Leite: Comece pelo problema, não pela tecnologia. Pergunte: o que eu faço hoje que poderia ser melhor, mais rápido, mais simples ou mais eficiente? Como eu posso me comunicar melhor com meu público? Como posso usar dados para tomar decisões? Como posso aprender continuamente?
Não é preciso começar com grandes investimentos. Muitas vezes, a transformação começa com uma mudança de postura: testar, aprender, medir, corrigir e evoluir.
A tecnologia mais importante, em muitos casos, é a capacidade de adaptação.
Portal CBN Campinas: Em resumo, qual é a principal mensagem para os próximos anos?
Samuel Leite: A tecnologia vai continuar transformando tudo: trabalho, consumo, educação, comunicação, negócios e relações humanas. Mas o futuro não será definido apenas pelas ferramentas. Será definido pelas pessoas que souberem usá-las com inteligência, ética e propósito.
A transformação digital não é uma corrida para ver quem adota mais tecnologia. É uma oportunidade de construir empresas melhores, profissionais mais preparados e uma sociedade mais conectada com os desafios do seu tempo.
O futuro do trabalho e da inovação será cada vez mais digital. Mas, paradoxalmente, também precisará ser cada vez mais humano.
