As cinco maiores cidades da região registraram 848 casos de afastamento de professores por licença médica na rede estadual de ensino no ano passado. O número reforça o alerta sobre as condições de trabalho e os impactos na saúde física e emocional dos profissionais da educação.
Uma professora com mais de vinte anos de carreira na rede estadual está afastada há cerca de um ano após diagnóstico de transtorno misto de ansiedade e depressão. Segundo o relato dela, a rotina de pressão, avaliações constantes e a sensação de falta de apoio institucional contribuíram para o agravamento do quadro.
Os afastamentos não estão ligados apenas à saúde mental. Problemas físicos como dores crônicas, desgaste vocal e outras condições também aparecem entre os motivos frequentes para licenças médicas. Dados obtidos pelo Grupo EP via Lei de Acesso à Informação mostram o cenário nas cidades de Campinas, Indaiatuba, Limeira, Piracicaba e Sumaré.
Em 2024 foram 834 licenças médicas. Já no ano passado o total subiu para 848.
O recorte por faixa etária indica maior concentração de afastamentos entre professores de 50 a 59 anos, com 345 casos. Em seguida aparecem docentes entre 60 e 69 anos, com 223 registros.
Quando a análise considera o cargo, a maioria das licenças médicas envolve professores que atuam do sexto ao nono ano do ensino fundamental, faixa que soma quase 650 afastamentos.
O pesquisador Ronaldo Alexandrino, doutor em Educação com pós-doutorado em Psicologia, aponta que parte do adoecimento está relacionada à perda de autonomia docente e ao aumento das exigências burocráticas. Segundo ele, muitos profissionais passam a se sentir mais pressionados por metas e processos administrativos do que pelo trabalho pedagógico, o que pode gerar desgaste emocional.
Mesmo em uma rede estadual com mais de 200 mil professores, sendo cerca de 170 mil em sala de aula, especialistas avaliam que afastamentos sempre existirão. O desafio, segundo pesquisadores da área, é ampliar políticas de prevenção, melhorar as condições de trabalho e fortalecer o diálogo com os profissionais para reduzir o adoecimento na educação pública.
Nota da Secretaria Estadual de Educação
Em nota, a Secretaria da Educação do Estado de São Paulo informou que monitora os afastamentos para planejar e aprimorar ações de prevenção e cuidado, especialmente relacionadas à saúde mental dos professores. Segundo a pasta, um serviço de teleatendimento criado em 2024 já registrou, até o fim de janeiro deste ano, mais de 875 mil atendimentos em psicologia e outros 52 mil na área de psiquiatria.
A secretaria atribui parte do aumento dos afastamentos às transformações enfrentadas pela categoria nos últimos anos, como os impactos da pandemia, o uso crescente de novas tecnologias e mudanças nas demandas sociais e pedagógicas. A SEDUC afirma ainda que pretende fortalecer políticas de acolhimento, escuta e prevenção voltadas aos profissionais da rede estadual.