A troca de gestão dos serviços de Saúde Mental de Campinas, antes geridos pela Associação Cândido Ferreira, e agora assumidos pela Prefeitura, têm gerado descontentamento entre os usuários da rede.
A troca começou no ano passado. O Cândido Ferreira é responsável por cerca de 5,5 mil atendimentos na cidade. Após um período de negociações, Prefeitura e Cândido firmaram um novo convênio, com vigência de 24 meses.
A maior preocupação gira em torno do futuro dos CAPS (Centros de Atenção Psicossocial Álcool e Drogas), unidades físicas que eram operadas pelo Cândido Ferreira.
A professora do Departamento de Psicologia da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas), Karina Oliveira, afirmou em entrevista à CBN que dois CAPSs importantes, entre eles o do Taquaral, seriam fechados a partir de abril.
“Tem um número de pacientes bastante significativo que circulam lá por mês, tem oito leitos em que a pessoa pode dormir em caso de crise, mas esse serviço vai ser fechado, assim como o CAPS da Região Sul mais posteriormente”, declarou.
Falta de sede fixa
A incerteza sobre o futuro da RAPS (Rede de Atenção Psicossocial) de Campinas também afeta os usuários dos serviços conhecidos como CECOs (Centros de Convivência).
A aposentada Silvânia Santos frequenta o serviço “Rosa dos Ventos”, na Rua da Abolição, há 21 anos, mas denuncia que as atividades não têm sede fixa desde o início do processo de municipalização da Saúde Mental.
Provisoriamente, as dinâmicas de exercícios físicos têm sido feitas no salão da Paróquia Santo Cura D’Ars.
“A Rosa dos Ventos era uma mãe pra nós. Eu fazia os exercícios, mas eles tinham várias atividades: videokê, mosaico, culinária. Eles estão no salão aqui da Igreja, porque há muitos anos eu pedi para o padre para a Rosa dos Ventos usar porque a casa era pequena. Agora eu pedi para eles, para a Prefeitura, e eles estão usando os nossos espaços da Igreja porque eles não têm prédio, não têm nada”, descreveu.
Falta de materiais
Outra usuária que se queixa das mudanças é a aposentada Teresinha Neves, que frequenta as oficinas de mosaico no Centro de Convivência “Espaço das Vilas”, na Vila Miguel Vicente Cury há 20 anos.
Ela reclama da falta de alguns materiais de bricolagem para as atividades, considerados muito importantes para as atividades.
“Você precisa das pinças, dos alicates para cortar os azulejos, da cola. E até então não tinha, porque o que era dali era do Cândido e eles levaram. Aí ficamos sem”, lamenta.
Prefeitura responde
A CBN procurou a Prefeitura, que declarou acompanhar de perto o cronograma estabelecido no acordo judicial com o Cândido Ferreira, com ampliação das equipes e manutenção das atividades.
Sobre as reclamações no Espaço das Vilas, a Administração diz ter aumentado a equipe de três profissionais de nível superior para cinco de nível superior e um de nível médio.
Os materiais de oficinas são adquiridos por meio de processo administrativo. A Prefeitura declarou que as missões originais de convivência, socialização e promoção de saúde estão preservadas.
Já em relação às sedes dos Centros de Convivência, a Secretaria Municipal de Saúde afirma que algumas delas estão em processo de reforma ou locação, com previsão de regularização nos próximos meses.
A Prefeitura também diz que as atividades fora da sede fazem parte do modelo do programa de Saúde Mental, e que vão seguir dessa forma mesmo depois da conclusão das obras.
A Prefeitura de Campinas também nega o fechamento do CAPS AD Taquaral e o CAPS Sul, e afirma que ainda neste primeiro trimestre, vai inaugurar um novo CAPS Infanto Juvenil na cidade. Com este, a rede de atenção psicossocial vai passar a ter 15 unidades entre Adulto, Álcool e Drogas e Infanto-Juvenil.
Nota do Cândido Ferreira
Em nota, o Cândido Ferreira explica que, no acordo firmado com a Prefeitura de Campinas, não há previsão de fechamento de nenhuma unidade de Centro de Atenção Psicossocial (CAPS) que integra a RAPS de Campinas. As unidades seguem em funcionamento, conforme estabelecido no convênio vigente.
O Cândido Ferreira diz que, conforme previsto no novo convênio, a Prefeitura optou por assumir gradualmente a gestão de alguns serviços até então administrados pelo Serviço de Saúde, o que vem sendo chamado de “municipalização”.
As duas partes optaram por um cronograma definido pela Prefeitura, para transferir esses serviços ao longo dos 24 meses de vigência contratual.
Entre o final de novembro de 2025 e o final de janeiro de 2026 passaram à gestão pública municipal:
1 equipe do Consultório na Rua;
5 Centros de Convivência (CECOs): Espaço das Vilas, Casa dos Sonhos, Rosa dos Ventos, Portal das Artes e Toninha.
As outras 2 equipes do total de 3 do Consultório na Rua serão municipalizadas 11 meses após a data de assinatura do convênio.
Em relação aos CAPS dos tipos III (adultos/24h), IJ (infantojuvenil) e AD (álcool e outras drogas), a municipalização está prevista para ocorrer em cinco unidades, em prazos distintos, contados a partir da assinatura do convênio:
CAPS III Reviver (Parque Taquaral): 7 meses;
CAPS IJ Espaço Criativo (Jd. Novo Campos Elíseos): 11 meses;
CAPS IJ Carretel (Jd. Nossa Senhora Auxiliadora): 18 meses;
CAPS III Novo Tempo (Jd. Novo Campos Elíseos): 18 meses;
CAPS AD Independência (Parque Itália): 18 meses.
Em relação ao Núcleo de Oficinas Terapêuticas (NOT) e à Casa das Oficinas, serviços voltados à inclusão social por meio do trabalho, o Cândido Ferreira diz que o convênio prevê a redução de 100 vagas, das atuais 300, após 11 meses da assinatura. Essa mudança implicará o fechamento da Casa das Oficinas e a readequação das oficinas desenvolvidas no NOT, na sede do Cândido Ferreira, em Sousas.
O Serviço de Saúde Dr. Cândido Ferreira reafirma que segue cumprindo integralmente o convênio vigente e mantendo seu compromisso histórico com o cuidado em liberdade, com a qualidade da assistência e com o fortalecimento da saúde mental pública em Campinas.
Errata: a CBN errou ao afirmar que o convênio com o Serviço de Saúde Cândido Ferreira foi encerrado. Na verdade, houve o firmamento de um novo convênio, com duração de 24 meses, com a transferência gradual das operações. A informação foi corrigida em 24.fev.2026 às 18h20.