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Romeiros de Campinas vão levar “Maria ao encontro de Maria” em peregrinação a Aparecida

Grupo percorrerá rota de oito dias com imagem da Padroeira do Brasil construída a partir de ferragens das rodovias
Romeiros de Campinas vão levar “Maria ao encontro de Maria” em peregrinação a Aparecida
Foto: Kevin Kamada/CBN Campinas

O badalar dos sinos na Catedral Metropolitana, conectou a espiritualidade e o propósito de 59 romeiros na manhã desta sexta-feira (27).

Neste exato momento, estes fiéis de Campinas e região, cortam as estradas e morros da Serra da Mantiqueira e do Vale do Paraíba em direção ao Santuário Nacional de Aparecida.

São 34 homens e 25 mulheres. Ao longo do caminho, eles se unem a milhares de caravanas, de outras regiões do país.

Quando chegarem à “Casa da Mãe”, apelido dado ao Santuário Nacional, no próximo sábado, muitos terão concretizado mais uma jornada marcada pela superação. Mas também vão ter outras coisas na “mochila” que saíram daqui de Campinas.

A mochila é uma das companheiras inseparáveis dessas pessoas pelos próximos 250 quilômetros. Quando eles receberam a bênção, na “Missa de Envio”, e saíram pela Avenida Francisco Glicério nesta sexta, os 59 caminhantes levavam alguns itens como trocas de roupa, garrafa de água, kits de higiene pessoal, meias, protetor solar…

Mas também levavam algo que não cabe nessa bolsa: a fé. A cantora Maria Cláudia integra o Ministério de Música da Paróquia São Miguel Arcanjo, de Sumaré. Sabe, como poucos, a potência que cada acorde tem para inspirar a jornada.

Nesta longa caminhada até Aparecida, para ela é como se uma partitura se transformasse no mapa que vai levá-la até o Santuário.

“Essa vai ser a segunda. Eu fiz a primeira em 2024 e, na peregrinação, era como se ela falasse para mim: ‘só mais um passo, só mais um passo’. E eu fui vencendo o cansaço, porque a vontade de desistir é muito grande. E nesse ‘só mais um passo’ eu cheguei até a casa da Mãe”, comemora.

De fato, não é uma tarefa fácil. Antes de partirem, estes 59 romeiros treinaram muito para fazer esse percurso. De sábado em sábado nos últimos meses, eles aproveitaram cada desnível do relevo das estradas rurais de Sousas e Joaquim Egídio nos treinos para a romaria.

Se para quem está acostumado já é desafiador, imagine para quem está na primeira. O consultor de derivados de petróleo, César Augusto Figueiredo, acreditou no testemunho dos amigos da Paróquia Nossa Senhora de Fátima, em Campinas, e calçou o tênis. 

Os joelhos acenderam um sinal de alerta, mas para ele, a fé vai permitir concretizar o seu objetivo.

“No começo, eu queria acompanhar as outras pessoas, mas o pessoal já é muito bem treinado e eu saí do sedentarismo. Machuquei os joelhos e acho que Deus melhorou 99%, mas na sabedoria dele, ele deixou uma dorzinha bem fraquinha no joelho para lembrar: não precisa querer se superar. Você não vai ganhar medalha. O objetivo mesmo é fazer a caminhada de forma saudável, com muita oração, com muita reflexão para poder chegar bem ao destino, que é a casa da Mãe”, projeta.

Apesar de simbólico, cumprir o trajeto completo, de Campinas a Aparecida, não deve ser a meta indispensável desses fiéis… Quem tranquiliza é o Padre Antônio Alves. O pároco da “Paróquia São Marcos, O Evangelista”, que está indo para a segunda peregrinação lembra que o propósito caminha ali, logo ao lado.

“A peregrinação não é caminhar de uma cidade à outra, tantos quilômetros. A verdadeira peregrinação é aquela em que a gente faz em direção ao nosso interior. Por que o que é o peregrino? É alguém que faz um caminho em direção a um Santuário. A preparação física não é a mais importante, a primeira. Ela faz parte. Nós estamos falando de espiritualidade e, também, de preparação psicológica. Porque o caminho vai te mostrar coisas que você precisa enfrentar, e não vai ter como fugir. Você vai visitar traumas, vai precisar enfrentar aquilo, porque chegou o momento de você curar, de tratar aquela situação”, comenta.

Até o próximo sábado, o último dia da peregrinação, o “galo analógico” vai despertar essa turma sempre às 04h00 da manhã para que eles iniciem a caminhada de cerca de 25 a 30 quilômetros diários.

Um percurso, como eles dizem, protegido pelo manto da padroeira do Brasil, à espera deles no Santuário cravado no Vale do Paraíba.

A proteção dos céus está garantida, mas também conta com uma retaguarda no solo: o Seo Natal Silveira, o organizador da romaria. Ele é um dos coordenadores para que a peregrinação à pé aconteça em segurança.

Planejar a rota, reservar os quartos nas pousadas, comprar as frutas que vão alimentar os peregrinos nos pontos de parada. O pensamento em cada detalhe há 18 anos.

“Eu tenho cinco cirurgias na perna, onze pinos, e eu tinha uma promessa. E eu saí, fiz em seis dias. Fui num domingo pela manhã. Quando cheguei em Aparecida eu falei: ‘nunca mais faço isso’. Cheguei arrebentado. Aí apareceu mais um, mais um. E o que me motiva é na hora do testemunho que eles dão. Tem homens que eram mau educados com a esposa, que eram grosseiros, e mudaram de vida. As esposas já vieram nos falar isso. Você faz uma terapia com você mesmo nos momentos da estrada. Você anda na chuva, no Sol, no frio”, conta.

No próximo sábado, quando a distância restante for de apenas oito quilômetros, uma mãe vai olhar avistar outra mãe, ainda que distantes, em plena Rodovia Presidente Dutra.

De um lado, a imagem de Nossa Senhora Aparecida, no Santuário Nacional, e outra, à frente dos 59 peregrinos de Campinas, com os uniformes azuis e amarelos.

É dentro de outra mochila, com abertura transparente e vestida no peito por quem estiver à frente dessa romaria, que os raios de Sol vão iluminar uma peça única, e que se tornou um símbolo desse grupo.

A imagem de “Nossa Senhora da Mãe Peregrina” foi construída a partir de parafusos, arruelas, pedaços de chapa e outros objetos que os caminhões perderam pelos acostamentos da Dutra.

Cada item cuidadosamente soldado na forma da imagem encontrada pelos pescadores, há mais de 300 anos no Rio Paraíba do Sul, com seu formato triangular e uma peculiaridade: ela não tem rosto.

Talvez seja por representar tanta gente que ela encontra nestas estradas, como se emocionam os três criadores da imagem peregrina: o casal Silvia e José Carlos da Silva e o amigo Roberto Coralli.

“Então a ideia era levar essas peças no dia da reunião, colocar sobre a mesa e mostrar para os peregrinos o perigo de caminhar nessa peregrinação. A Sílvia teve uma luz e nos disse: ‘E se a gente pegasse essas peças e montasse uma imagem?’. Depois que estava pronto, nós levamos para um padre fazer uma bênção. Aí ele ficou contemplando e ele falou: ‘Olha, essa imagem não pode ficar parada na casa de vocês, ela tem que peregrinar”, conta José.

“Logo na segunda semana, a gente viu muitas graças começarem a acontecer, de pessoas que acreditaram na presença de Maria, não naquela imagem de ferro, mas na presença de Maria junto com elas, e Jesus ali operando as graças e os milagres necessários”, descreve Silvia.

“É uma imagem que foi feita pelas mãos do José, mas que foi inspirada pelo Espírito Santo mesmo. E ela é a nossa companhia hoje. Ela é muito bem aceita na romaria, é a primeira da fila. Quem sai, sai atrás dela. Ninguém passa à frente dela, não. A importância da humildade quando a gente fala com Nossa Senhora. Ela atende os humildes e os pequeninos”, se emociona Roberto.

Segundo a crença católica, as romarias são formas de devoção, mas como este grupo faz questão de reforçar, esta é uma peregrinação.

Peregrinos que, depois de 250 quilômetros, pretendem cruzar as portas da Basílica, em Aparecida, diferentes da forma como saíram das portas da Catedral Metropolitana.

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