Mais uma páscoa está chegando e, com ela, a tradição de trocar barras e ovos de chocolate. Mas muita gente percebe que o sabor de hoje não é exatamente o mesmo que em outros tempos.
Saindo de uma loja especializada em chocolates, em Campinas, a chef de cozinha Sônia Basso carregava três grandes sacolas. São os ingredientes para mais uma temporada de preparação de ovos de chocolate que vão fazer esta Páscoa ser mais doce de novo.
Mas a compra não foi exatamente barata. Ela conta que fez opção por produtos de marcas estrangeiras e mais caras, que mantém o “verdadeiro” sabor do chocolate.
“Você sente na língua, na papila gustativa, que está bem diferente e mais hidrogenado. É a diferença de um chocolate de padrão internacional, que derrete rápido. Esse [nacional] você sente o peso”, conta.
A explicação, em teoria, é simples: muitas marcas nacionais optaram por substituir o cacau por outros ingredientes. A decisão protege as empresas da oscilação do preço do cacau no mercado internacional.
Na Páscoa do ano passado, os contratos-futuros da matéria-prima chegaram a US$ 8.700 por tonelada. Até o último dia 25, a cotação já havia caído para cerca de US$ 3.100, por tonelada.
A variação é explicada pelos problemas na produção de cacau na Costa do Marfim e em Gana, os líderes globais do segmento.
A nutricionista Ana Paula Tonissi explica por que esses “chocolates adaptados” têm um sabor e uma experiência diferentes ao comer.
“A manteiga de cacau é a gordura natural do chocolate. Quando ela é substituída por gorduras vegetais, por exemplo o óleo de palma, a gordura hidrogenada, acontecem mudanças muito importantes: a textura dela fica mais cerosa, gordurosa. Fica aquela sensação de sabor de gordura. O derretimento não é tão fácil”, explica.
Pela lei brasileira, chocolate é aquele que tem, pelo menos, 25% de cacau na fórmula. Mas a nutricionista orienta que o melhor custo benefício está nos produtos com teor de, pelo menos, 60%.
“É um chocolate que tem mais antioxidantes, polifenóis, menos açúcar e que conferem maior saciedade. Uma opção intermediária para a criança seria o chocolate ao leite com boa composição: acima de 35%, porque ele ainda tem cacau, tem uma parte de açúcar, mas ainda traz o cacau na composição”, recomenda.
A especialista também orienta como detectar, direto no rótulo, um “falso chocolate”. Produtos ricos em gorduras vegetais podem conter gorduras trans, que podem piorar os níveis de colesterol ruim.
“A gordura vegetal, a gordura hidrogenada, o óleo de palma, eles provavelmente vêm escritos ‘cobertura sabor chocolate’. O que está em primeiro é o que tem maior quantidade no chocolate. Se o ingrediente que aparece primeiro é o açúcar ou a gordura, isso já está indicando que o chocolate é de qualidade inferior”, alerta.
Segundo o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), do IBGE, o preço do chocolate em barra e do bombom acumularam, em março, uma alta de 26% em 12 meses.