A denúncia de falta de estrutura na Universidade Estadual de Campinas está no centro do caso que envolve a pesquisadora Soledad Miller, investigada pela Polícia Federal por furto de vírus.
Professores da Faculdade de Engenharia de Alimentos, a FEA, afirmam que a unidade não possui laboratórios adequados para pesquisas em virologia de alimentos — área para a qual a pesquisadora foi contratada após passar em primeiro lugar em concurso público.
A FEA, que existe há quase 60 anos, é uma das mais tradicionais do país e já desenvolveu estudos importantes, como o uso da soja na alimentação e processos mais sustentáveis na produção de alimentos.
Segundo docentes, Soledad não tinha espaço próprio para trabalhar. Ela utilizava, de forma provisória, um freezer em outro departamento da faculdade, como contou o professor da FEA, Julian Martínez.
A professora Glaucia Pastore, ex-pró-reitora de pesquisa da Unicamp, afirmou que a unidade não tem laboratórios disponíveis para novos professores.
Sem estrutura na FEA, a pesquisadora foi realocada para o laboratório de virologia do Instituto de Biologia, a cerca de 300 metros de distância. De acordo com a Polícia Federal, foi nesse local que o furto aconteceu.
A reportagem tentou contato com a responsável pelo laboratório, mas não teve retorno.
O Ministério Público Federal abriu um procedimento para apurar se a Unicamp falhou no controle e na fiscalização de material biológico sensível.
Ao menos 24 cepas de vírus, como dengue, zika, herpes e coronavírus, foram levadas do laboratório do Instituto de Biologia para outros espaços dentro da universidade.
Soledad Miller chegou a ser presa, mas responde em liberdade. Ela é investigada por transporte irregular de organismos geneticamente modificados, por colocar em risco a saúde de outras pessoas e por fraude processual, por suspeita de tentar ocultar provas.
O marido dela, o doutorando Michael Edward Miller, também é investigado pela Polícia Federal.
Mais de uma semana depois de o caso vir a público, ainda há perguntas sem resposta. Uma delas é por que a pesquisadora foi contratada para atuar com virologia de alimentos sem que houvesse estrutura adequada para esse tipo de pesquisa.
Em nota, a Unicamp disse que abriu uma investigação interna para apurar os fatos e que mantém um processo continuo de expansão acadêmica de infraestrutura, com investimentos permanentes em prédios, laboratórios e equipamentos científicos.