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Campinas tem mais de 13 mil pessoas surdas e ainda enfrenta desafios para garantir acesso à comunicação

Mesmo com a Língua Brasileira de Sinais reconhecida por lei, a oferta de profissionais qualificados ainda não acompanha a demanda. Um novo concurso público aberto pela Prefeitura de Campinas tenta

Campinas tem mais de 13 mil pessoas surdas e ainda enfrenta desafios para garantir acesso à comunicação
Prefeitura de Campinas/Reprodução

Mesmo com a Língua Brasileira de Sinais reconhecida por lei, a oferta de profissionais qualificados ainda não acompanha a demanda. Um novo concurso público aberto pela Prefeitura de Campinas tenta reduzir esse déficit. Mas, além de preencher vagas, reacende um debate antigo: a escassez de intérpretes.

Na Região Metropolitana de Campinas, são mais de 124 mil pessoas com deficiência auditiva. Na cidade, são 13.561 moradores surdos, segundo o Censo de 2022. Para atender essa população, Campinas conta com a Central de Intérpretes de Libras, criada em 2015. O serviço oferece apoio presencial, remoto e externo em áreas como saúde, Justiça e assistência social. Nos últimos quatro anos, foram mais de 10 mil atendimentos, com maior demanda na área da saúde.

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Mesmo assim, quem atua na linha de frente aponta limitações. A professora e intérprete de Libras da Puc Campinas, Thaisa França, explica que o trabalho exige preparo constante e vai muito além da tradução literal. Ela destaca que a falta de sinais para determinados termos e a necessidade de dominar vocabulários específicos de diferentes áreas tornam a interpretação mais complexa.

“Em português nós temos muitos vocábulos, mas em Libras é um pouco mais restrito e há muitos sinais que ainda não existem. Em vez de uma tradução palavra sinal, é usado o empréstimo linguístico do português, que é o alfabeto manual. Quando desconheço o sinal de alguém ou alguma coisa, usamos o alfabeto manual, mas isso não é Libras pura”, destacou Thaisa.

A formação também é um ponto crítico. Muitos profissionais ainda atuam com nível médio e precisam lidar com conteúdos complexos, inclusive no ensino superior.

“Muitos são contratados em nível médio, e isso é um agravante, traduzir para alguém que está no ensino superior. Você não é o professor, é o mediador. Então tem a questão de confundirem muito os papéis de quem é intérprete, quem é professor. A inclusão é uma inserção e muitas vezes o surdo com intérprete fica excluído do contexto”.

Na educação, os desafios começam cedo. Segundo Thaisa, muitos alunos surdos chegam à escola sem domínio da Libras ou do português. Nesses casos, o intérprete enfrenta um impasse: seguir a tradução ou tentar construir uma base mínima de compreensão para o aluno.

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Para ela, apenas a presença do intérprete não garante inclusão. O modelo atual, muitas vezes, ainda não assegura acesso real ao conteúdo.

“O ideal seria um ensino bilíngue, onde houvesse um professor que saiba Libras e a língua de instrução já fosse direto a Língua de Sinais, sempre usando material visual, a tecnologia assistida, Libras e a comunicação com as mãos, além do português escrito. [É necessário] toda essa base, mas teria que ser fluente e não é a realidade do Brasil. São poucos profissionais, as demandas são grandes”, completou a professora.

A preparação prévia também é essencial. Estudar o tema, conhecer o contexto e ter acesso ao material com antecedência são fatores que impactam diretamente na qualidade da interpretação.

Apesar dos desafios, há avanços. A secretária de Assistência Social de Campinas, Vandecleya Moro, afirma que a cidade tem ampliado políticas de inclusão. Segundo ela, a Central de Intérpretes realiza, em média, 280 atendimentos por mês e garante comunicação efetiva no acesso aos serviços públicos. Ela destaca que o novo concurso reforça essa política e amplia a presença de profissionais qualificados.

“Campinas tem avançado na inclusão das pessoas com deficiência. A cidade conta com escolas, polo bilíngue na rede municipal, com servidores surdos concursados, atuando em diferentes áreas da Prefeitura. O novo concurso para intérpretes é mais um passo para essa construção. Cada profissional qualificado que ingressa no serviço público fortalece essa política de forma permanente”, disse a secretária.

Ainda assim, especialistas apontam que o crescimento da demanda é mais rápido do que a formação de novos intérpretes. O resultado é um cenário em que o direito à comunicação existe na lei, mas ainda enfrenta barreiras na prática.

Concurso para intérprete

São cinco vagas para tradutor e intérprete de Libras, com salário de pouco mais de R$ 4 mil e jornada de 30 horas semanais. As inscrições vão de 25 de maio a 26 de junho. O edital também marca a aplicação de novas cotas raciais e sociais, ampliando o acesso ao serviço público.

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