A remoção de árvores do Bosque dos Jequitibás trouxe à tona o debate sobre o manejo florestal em Campinas.
A Prefeitura encaminhou ao Condepacc (Conselho de Defesa do Patrimônio Cultural) e ao Condephaat (Conselho Estadual de Defesa do Patrimônio Histórico) um pedido para remover 126 árvores do parque, que estariam condenadas.
Mas o plano desagradou integrantes do COMDEMA (Conselho Municipal de Meio Ambiente), que afirmou que não teria sido consultado sobre a medida e vê risco de “dano ambiental irreversível”.
No dia 9 de abril, o comitê publicou uma recomendação para que o município suspenda imediatamente o plano, apresente os laudos técnicos ao COMDEMA e detalhe o cronograma de manejo gradual, com a conservação e escoramento das árvores sempre que possível.
O grupo denuncia que o início do manejo operacional sem a apreciação do colegiado, fere uma lei municipal de 2001 e uma instrução normativa de 2025. O presidente do COMDEMA, Tiago Lira, critica o que avalia ser um boicote à participação popular.
“A minha percepção é que é um governo autoritário e que não sabe lidar com a participação popular, que não tem interesse e não respeita. O governo tem 16 dos 33 conselheiros, mas não faz uma discussão dentro do Conselho, não tenta fazer uma política interna, uma mobilização, uma discussão de teses. Ele simplesmente quer soterrar a participação do Conselho. Um Bosque que é uma luta da sociedade civil, e que só existe porque houve luta da sociedade civil”, opina.
MP entra no debate
O COMDEMA também protocolou uma representação junto ao Ministério Público para reforçar o pedido de paralisação dos cortes e o cumprimento do rito legal.
Ainda no dia 9, a promotora Luciana Ribeiro Viegas, que integra o Grupo de Atuação Especial de Defesa do Meio Ambiente (GAEMA) determinou que a Prefeitura se manifestasse, em dois dias, sobre a decisão de remover as árvores do Bosque.
Prefeitura responde MP
Procurada pela CBN, a Secretaria de Serviços Públicos afirmou já ter respondido ao ofício, e reforçou ter encaminhado o estudo que embasa a necessidade de substituir as 126 árvores do Bosque.
A Prefeitura diz que o manejo já está acontecendo de forma gradual: primeiro, com a substituição de 60 árvores, e agora com os pedidos de autorização de 126 árvores.
A Secretaria também rebate as afirmações do COMDEMA, e diz que a regulamentação de leis é competência privativa do prefeito, por meio de decretos. A Prefeitura também pontua que a norma aborda temas já regulamentados por leis municipais e complementares, o que não pode ser alterado por meio de resolução.
Discussão no Condepacc
A nível municipal, a autorização para o manejo das árvores já foi dada pelo Condepacc, mas uma das conselheiras a votar contra a proposta foi Tereza Penteado. Ela disse estranhar a celeridade na emissão do laudo técnico do Conselho, com parecer positivo para a remoção.
“Note: o envio foi no dia 25 de novembro [de 2025], às 10h05. O Élcio, no mesmo dia 25 de novembro, às 14h19, emite o parecer favorável tendo em vista a necessidade de se antecipar aos riscos de queda de árvores no período chuvoso, e ele faz esse parecer favorável. Ou seja: ninguém foi conferir as árvores, olhar as árvores. Isso chegou para o Condepacc votar”, declarou.
Outros membros do Condepacc rebatem o questionamento de Tereza. A coordenadora do Patrimônio Cultural (CDPC), Fabíola Rodrigues, afirma que o levantamento das condições das árvores do Bosque vem sendo feito desde janeiro de 2025. Na época, um pedido inicial solicitava a remoção de 60 árvores condenadas. Por isso, todos os 126 exemplares que são objeto do atual pedido de remoção estariam, sim, mapeados.
“Esse plano de manejo foi construído durante um certo período e com o acompanhamento da equipe da CDPC. Antes mesmo da apresentação do plano de manejo no Condepacc, houve algumas solicitações pontuais, ad hoc, para a supressão de árvores no perímetro externo do Bosque dos Jequitibás, na área de mais circulação e em algumas partes internas. Quando essa solicitação chegou para a supressão dos 126 indivíduos arbóreos em dezembro de 2025, o plano de manejo já estava concluído. Ele foi apresentado para o Conselho e a sua confecção foi acompanhada pela equipe técnica da CDPC. Inclusive o nosso técnico esteve lá em alguns momentos desse levantamento feito pela equipe contratada pela Secretaria de Serviços Públicos”, argumenta.
A presidente do Condepacc, a secretária municipal de Cultura e Turismo, Alexandra Caprioli, também argumenta que, embora o aspecto ambiental também seja analisado, o veredito do Conselho prioriza a avaliação do conjunto de itens do patrimônio cultural que compõe o Bosque dos Jequitibás.
“Quando a gente fala de um patrimônio ambiental tombado, nesse caso, nós não estamos falando de cada árvore tombada, mas de quanto a ambiência, essa paisagem contribui para manter esse patrimônio. O nosso olhar não é de cada indivíduo arbóreo, mas sim se a supressão vai mudar a ambiência do local. E, muitas vezes, há necessidade realmente, por serem árvores que estão condenadas, em que foi apresentado um laudo de que elas não estavam em condições de permanência, e que algumas delas serão substituídas, e as outras que não eram árvores naturais daquela paisagem”, pondera.
Metodologia do manejo
Segundo a Prefeitura de Campinas, as 126 árvores correspondem a 4% da cobertura arbórea do Bosque dos Jequitibás, que tem mais de três mil árvores. O município argumenta que as trocas vão ser conduzidas por espécies adequadas.
Para o serviço de manejo, a Administração diz usar uma metodologia da Esalq (Escola Superior de Agricultura “Luiz de Queiroz”), da USP (Universidade de São Paulo), desenvolvida especificamente para o Plano Diretor Florestal do Bosque, à pedido da Prefeitura.
Por se tratar de um parque tombado pelo Estado desde 1970, o Condephaat também precisa se manifestar sobre o Bosque dos Jequitibás. Em nota, o órgão confirmou ter recebido o pedido em abril, pontuou que a análise técnica é feita de forma independente e com prazo de resposta de até seis meses.
Reportagem atualizada em 17.abr.2026 às 11h16 para a inclusão do posicionamento enviado pelo Condephaat.
