Toda vez que alguém entra no mar, sabe de duas coisas. Primeiro: que é preciso saber nadar. E segundo: que é preciso ficar sempre vigilante.
Essa metáfora simples também vale para a vida e o quanto ela é imprevisível, exatamente como são as águas de um oceano.
Muitas vezes, elas podem estar paradas. Mas, do nada, a maré pode subir e as ondas ficarem mais fortes. É quando toda certeza que parecia sólida, de uma hora para a outra, fica completamente líquida e incerta.
Mãe, casada, e o título mais recente: uma marinheira de primeira em um tempo de águas agitadas.
“Eu sempre fiz [o exame], porque eu tenho o histórico de câncer de mama da minha mãe. E foi de um ano para o outro que eu descobri o nódulo. Era um medo que já tomava conta de mim”, conta.
Luana de Bello é cuidadora, mas há um ano precisou inverter o papel para ser cuidada. Esta não foi a primeira viagem dela nesse alto mar da vida. O histórico de câncer de mama na família sempre esteve no radar.
Depois do diagnóstico, por um exame no Hospital de Amor, foi no Centro de Oncologia do Hospital Mário Gatti, em Campinas, que ela iniciou o tratamento.
Entre muitos altos e baixos, uma das ondas mais fortes foi a da perda de cabelo, um efeito colateral comum da quimioterapia.
Mas esta marinheira contou com um porto seguro para enfrentar a tempestade: a família. Com dedicação especial da filha, Lisandra.
“Quando eu iniciei a quimio, e que falaram que em 15 dias ia cair [o cabelo], realmente caiu. A minha família tornou isso mais leve. Eu tive o processo de me esconder, de não querer sair na rua. O processo maior eu acho que é o do apoio de quem está ao seu redor. Nesse processo, foi o meu esposo e a minha filha que falavam: ‘Vai lá, no seu tempo, a hora em que você estiver preparada”, compartilha Luana.
“Ela é uma pessoa excepcional. Ela é muito alegre. Tem hora que parece que ela dá mais força pra gente do que a gente para ela, sabe? Ela vai vencer. A gente está aqui com ela, sempre. A gente sempre acompanha ela em tudo. Ela nunca está sozinha. Ela formou uma família muito especial, então ela tem total apoio”, se emociona Lisandra.

O som da maquininha de raspar o cabelo é uma etapa dura e difícil para quem vive o processo de tratamento do câncer. Os fios caem e levam embora uma parte de autoestima e da personalidade dos pacientes. Pelo menos por um curto período de tempo.
Dizem que esperança é algo muito subjetivo. Para as pacientes oncológicas, não é, e tem o som de um minicaminhão que estaciona na rampa do maior hospital público de Campinas. O baú rosa e envidraçado, logo revela um pequeno salão de beleza, com uma penteadeira, um grande espelho e muitas luzes.
Cada lâmpada deste espaço, faz brilhar as peças que vêm para iluminar uma travessia que tem seus momentos de escuridão e incerteza.
Este é o caminhão da ONG Cabelegria, criada em São Paulo em 2017, e que visita Campinas uma vez por ano.
Dentro dele está um grande painel com 18 modelos de perucas de cabelos femininos, montadas a partir de doações e que vão ser novamente doadas.
Loiras, ruivas, morenas. Cacheadas e lisas. Cortes curtos e longos. No mercado da beleza, esses produtos não são encontrados por menos de algumas centenas de reais.

Quando o lenço que recobre a cabeça é tirado e dá lugar a um modelo que devolve o sorriso a uma paciente, a missão está cumprida, como nos conta a cabelereira e conselheira do Cabelegria, Carina Sampaio.
“Quando a gente pega a paciente, ela está deprimida, muito triste. Eu falo que a gente não apenas entrega a peruca. A gente conversa, bate um papo, e acaba entendendo como a paciente está. Se vemos que ela está muito mal e que ela não tem atendimento com assistente social e psicólogo, acabamos encaminhando ela para as nossas profissionais”, explica.
O momento de experimentar uma peruca não se resume apenas ao bem-estar estético. É um afago na alma, que tranquiliza e renova as esperanças para a cura, como defende a coordenadora de Humanização do Hospital Mário Gatti, Lucimeire Martini.
“Acima de tudo, é um projeto que a gente procura oferecer uma experiência diferente. Perder os cabelos é algo que mexe muito com a mulher, exatamente porque é a ‘moldura’ do rosto das pessoas. O corte que a gente faz, né? Então a Cabelegria, quando ela trouxe essa proposta há quatro anos, nós falamos: ‘Olha, é algo que a gente pode oferecer para essas mulheres retomarem a sua autoestima, se sentirem mais empoderadas, mais fortes'”, comenta a líder.

E as marinheiras que tratam bem às próprias emoções, também atravessam as tormentas do tratamento mais fortes. Há cinco anos no Hospital Mário Gatti, o médico oncologista Pedro Lassance não tem dúvidas do peso que o acolhimento e a espiritualidade têm na luta contra o câncer.
“E isso mostra pra gente: pode ser que não seja só a fé que vai ajudar, além de todo o processo de quimioterapia e de acolhimento. Mas acredito que a fé e o dia a dia dela ali, no ambiente da Oncologia, vai ajudar muito. Eu acredito muito nisso. O organismo funciona melhor”, defende o médico.
Com a ajuda do maquiador Rodrigo, a Ivanilde ajeita a posição da nova companheira de visual. São fios castanhos e cacheados, alinhados com o sorriso de quem gostou do que viu. A maranhense recebeu o diagnóstico de câncer de mama há 11 anos, que evoluiu para uma metástase nos ossos. Se depender do otimismo dela, esta batalha já tem uma vitoriosa. E de cabelo novo!
“Eu acho que é muito bom, parece que dá uma realçada na vida da gente. É igual ganhar um abraço apertado de manhã cedo! O futuro a Deus pertence. Vamos só fazer tudo certinho e esperar a vontade dele”, comemora.

O projeto Cabelegria recebe doações a partir de 15 centímetros de cabelos, de homens e de mulheres. Todo tipo de cabelo é aceito. As coletas podem ser feitas presencialmente, nas unidades parceiras do projeto, ou por meio do envio pelo correio.
O passo a passo para realizar o pré-cadastro e outras informações sobre o apoio financeiro, que também pode ser dado para confeccionar as perucas, estão neste site.