O ruído dos aviões e os dias nublados ainda causam medo por aqui. Há dois anos, os morros do bairro da Capela, em Vinhedo, o mais populoso da cidade localizada a 25 quilômetros de Campinas, foram testemunhas do mais grave acidente da aviação brasileira desde 2007.
Moradores de décadas e trabalhadores do comércio, que viram as curvas do vale serem iluminadas pelos holofotes do resgate numa tarde triste e com cheiro da fumaça.
Paulo, Claudivânia e Marcelo presenciaram tudo, do outro lado da rua de acesso ao condomínio Recanto Florido.
“A 800 metros, aqui para baixo, peguei o carro, imediatamente desci. Tinha muita gente já. Foi uma cena muito triste, aterrorizante”, descreveu o motorista de ônibus Paulo Feitosa de Lima.
“A gente começou a ouvir aquele barulho e todo mundo começou a sair na rua para ver. E veio aquele avião girando, e a gente achou que ia cair em cima da nossa casa porque foi cair a metros”, contou a dona de casa Claudivânia da Silva.
“Quando saiu a notícia de que todo mundo havia morrido, isso foi muito impactante”, lamentou o açougueiro Marcelo Barbosa.
A queda do ATR-72 operado pela Voepass na tarde do dia 9 de agosto de 2024, matou 58 passageiros e 4 tripulantes. O voo 2283 ligava Cascavel, no Paraná, a Guarulhos.
Dois anos depois, os relatórios de investigação do Cenipa (Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos) e da Polícia Federal já permitem cravar a causa do desastre.
Crime contra a segurança do transporte aéreo
As perícias apontam que uma combinação de ações negligentes, da manutenção da companhia aérea à decisão final dos pilotos dentro da cabine, permitiu que o avião prefixo PS-VPB fosse exposto a uma condição de risco irreversível.
Uma série de panes não informadas ou não registradas nos livros de manutenção em aeronaves da companhia aérea, cobrou seu preço mais alto no voo que nunca terminou.
É o que o Instituto Nacional de Criminalística, da Polícia Federal, chama de “cultura de não-reporte”.
Decisões criminosas, como entendeu a corporação ao indiciar, na quinta-feira (6), 16 funcionários ou ex-funcionários da Voepass por ações ou omissões que contribuíram com o acidente.
Quinze deles por Atentado contra a Segurança do Transporte Aéreo, como explicou o delegado-chefe da Polícia Federal de Campinas, André Ribeiro.
“O fato de expor à perigo já não é tolerado. Independente se o perigo levar à queda, e naquele dia era o gelo severo. Não importa se você queria o resultado, mas ele sendo previsível, você já responde que o perigo já pudesse causar o resultado. Nós chegamos ao quantitativo de 16 pessoas que tiveram uma conduta que influenciou diretamente no resultado”, explicou.
Segundo a Polícia Federal, as investigações também mostram que a ANAC (Agência Nacional de Aviação Civil) teria ciência de problemas recorrentes de manutenção das aeronaves da Voepass.
Cultura com divergências
Os depoimentos coletados pela corporação também indicaram divergências sobre a cultura de segurança da Voepass.
Enquanto diretores e gestores negaram orientação para esconder problemas, mecânicos e pilotos afirmaram que havia orientação para que as panes fossem reportadas apenas em aeroportos maiores. O objetivo seria o de não paralisar a operação dos aviões.
Apesar do confronto de versões, os depoimentos trouxeram um consenso: o de que o ATR não deveria permanecer voando em condição de gelo severo, mesmo que o sistema de degelo esteja funcionando.
Uma resposta para a ganância
A gaúcha Bianca Faller é sobrinha do André Michel, uma das vítimas da tragédia. Para ela, a justiça começa a ser feita, para quitar o preço doloroso da ganância.
“Eu acho que as pessoas indiciadas eram quem a gente sempre ‘bateu em cima’. O alto escalão. Quem foi responsável, vai responder. O indiciamento pela PF corresponde à nossa expectativa de que o alto escalão, incluindo o presidente, fosse responsabilizado”, declarou.
Para o advogado de acusação, Luciano Katarinhuk, a série de erros mapeados pelo laudo pericial, deixa a lição de que não há passageiro mais valioso do que a vida daquele que está no assento ao lado.
“É um marco com a forma como o Cenipa e, principalmente, a Polícia Federal atuou no relatório final. Achou e identificou os responsáveis de forma direta e indireta pela queda do avião. Era evitável e não foi evitado em detrimento das vidas em relação ao poder econômico”, avaliou.
A partir dos indiciamentos da Polícia Federal, cabe ao Ministério Público Federal analisar os relatórios e decidir se oferece denúncia à Justiça Federal. A etapa pode fazer com que os 16 indiciados se tornem réus e sejam julgados.
Para estas famílias, este será o pouso de uma viagem iniciada em outro 9 de agosto, mas agora trazendo uma passageira a mais à bordo: a resposta.
