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Dois anos após o voo 2283, famílias aguardam denúncia contra os indiciados

Causas do desastre em Vinhedo são explicadas pela Aeronáutica e pela Polícia Federal
voo 2283
Foto: Kevin Kamada/CBN Campinas

O ruído dos aviões e os dias nublados ainda causam medo por aqui. Há dois anos, os morros do bairro da Capela, em Vinhedo, o mais populoso da cidade localizada a 25 quilômetros de Campinas, foram testemunhas do mais grave acidente da aviação brasileira desde 2007.

Moradores de décadas e trabalhadores do comércio, que viram as curvas do vale serem iluminadas pelos holofotes do resgate numa tarde triste e com cheiro da fumaça.

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Paulo, Claudivânia e Marcelo presenciaram tudo, do outro lado da rua de acesso ao condomínio Recanto Florido.

“A 800 metros, aqui para baixo, peguei o carro, imediatamente desci. Tinha muita gente já. Foi uma cena muito triste, aterrorizante”, descreveu o motorista de ônibus Paulo Feitosa de Lima.

“A gente começou a ouvir aquele barulho e todo mundo começou a sair na rua para ver. E veio aquele avião girando, e a gente achou que ia cair em cima da nossa casa porque foi cair a metros”, contou a dona de casa Claudivânia da Silva.

“Quando saiu a notícia de que todo mundo havia morrido, isso foi muito impactante”, lamentou o açougueiro Marcelo Barbosa.

A queda do ATR-72 operado pela Voepass na tarde do dia 9 de agosto de 2024, matou 58 passageiros e 4 tripulantes. O voo 2283 ligava Cascavel, no Paraná, a Guarulhos.

Dois anos depois, os relatórios de investigação do Cenipa (Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos) e da Polícia Federal já permitem cravar a causa do desastre.

Crime contra a segurança do transporte aéreo

As perícias apontam que uma combinação de ações negligentes, da manutenção da companhia aérea à decisão final dos pilotos dentro da cabine, permitiu que o avião prefixo PS-VPB fosse exposto a uma condição de risco irreversível.

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Uma série de panes não informadas ou não registradas nos livros de manutenção em aeronaves da companhia aérea, cobrou seu preço mais alto no voo que nunca terminou.

É o que o Instituto Nacional de Criminalística, da Polícia Federal, chama de “cultura de não-reporte”.

Decisões criminosas, como entendeu a corporação ao indiciar, na quinta-feira (6), 16 funcionários ou ex-funcionários da Voepass por ações ou omissões que contribuíram com o acidente.

Quinze deles por Atentado contra a Segurança do Transporte Aéreo, como explicou o delegado-chefe da Polícia Federal de Campinas, André Ribeiro.

“O fato de expor à perigo já não é tolerado. Independente se o perigo levar à queda, e naquele dia era o gelo severo. Não importa se você queria o resultado, mas ele sendo previsível, você já responde que o perigo já pudesse causar o resultado. Nós chegamos ao quantitativo de 16 pessoas que tiveram uma conduta que influenciou diretamente no resultado”, explicou.

Segundo a Polícia Federal, as investigações também mostram que a ANAC (Agência Nacional de Aviação Civil) teria ciência de problemas recorrentes de manutenção das aeronaves da Voepass.

Cultura com divergências

Os depoimentos coletados pela corporação também indicaram divergências sobre a cultura de segurança da Voepass.

Enquanto diretores e gestores negaram orientação para esconder problemas, mecânicos e pilotos afirmaram que havia orientação para que as panes fossem reportadas apenas em aeroportos maiores. O objetivo seria o de não paralisar a operação dos aviões.

Apesar do confronto de versões, os depoimentos trouxeram um consenso: o de que o ATR não deveria permanecer voando em condição de gelo severo, mesmo que o sistema de degelo esteja funcionando.

Uma resposta para a ganância

A gaúcha Bianca Faller é sobrinha do André Michel, uma das vítimas da tragédia. Para ela, a justiça começa a ser feita, para quitar o preço doloroso da ganância.

“Eu acho que as pessoas indiciadas eram quem a gente sempre ‘bateu em cima’. O alto escalão. Quem foi responsável, vai responder. O indiciamento pela PF corresponde à nossa expectativa de que o alto escalão, incluindo o presidente, fosse responsabilizado”, declarou.

Para o advogado de acusação, Luciano Katarinhuk, a série de erros mapeados pelo laudo pericial, deixa a lição de que não há passageiro mais valioso do que a vida daquele que está no assento ao lado.

“É um marco com a forma como o Cenipa e, principalmente, a Polícia Federal atuou no relatório final. Achou e identificou os responsáveis de forma direta e indireta pela queda do avião. Era evitável e não foi evitado em detrimento das vidas em relação ao poder econômico”, avaliou.

A partir dos indiciamentos da Polícia Federal, cabe ao Ministério Público Federal analisar os relatórios e decidir se oferece denúncia à Justiça Federal. A etapa pode fazer com que os 16 indiciados se tornem réus e sejam julgados.

Para estas famílias, este será o pouso de uma viagem iniciada em outro 9 de agosto, mas agora trazendo uma passageira a mais à bordo: a resposta.

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