“Como a minha mãe veio de um relacionamento abusivo do primeiro casamento. Ele bebia, fumava e batia nela. E eu cresci ouvindo isso. Ela falava: ‘Ó, eu fiquei com meu marido até ele morrer, nós casamos, tem que casar, não tem que largar’. Então eu ficava assim meio apreensiva. Eu era dependente desse marido meu, eu achava que eu tinha que apanhar dele, eu tinha que, que sofrer aquelas agressões, porque eu era dependente dele, analfabeta também, porque eu parei de estudar nova, né?”
Essa fala é da Viviane Correia de Oliveira Valentin, moradora de Campinas. Antes mesmo de viver a violência dentro do próprio casamento, ela já conhecia aquela realidade. Na infância, ela viu a mãe ser agredida e cresceu ouvindo que, mesmo diante do sofrimento, o casamento deveria ser mantido.
Anos depois, essa ideia também marcaria a vida dela. Aos 15 anos, Viviane engravidou do primeiro filho. O relacionamento, que durou quatro anos, foi marcado por agressões psicológicas e físicas.
“Então, eu acredito que começou mais psicológico e depois veio a física, quando o meu filho nasceu. Então, aos quatro meses, ele beliscava, mordia o neném. Ele falava que tava brincando, e eu falava assim: ‘Isso não é brincadeira, você fica mordendo, dele ficar roxo e tudo’. E eu pensava assim: ‘E agora? Eu vou largar dele, casei no papel e tudo’. A minha mãe ficou com o marido dela até terminar, porque ele faleceu, mas eu ia acabar morrendo, né, com aquele relacionamento. Quando ele batia no menino, nós brigavámos, então eu acabava apanhando.”
Hoje, aos 42 anos, Viviane reconhece que não conseguia enxergar uma saída. A dependência emocional e financeira, somada à esperança de que o companheiro mudasse, fazia com que ela permanecesse naquela relação.
“Eu gostava muito dele, então não conseguia enxergar isso, sabe? Não conseguia sair daquela bolha, não conseguia sair daquele relacionamento porque eu amava muito ele. Eu gostava muito dele e eu acreditava que ele ia mudar, eu ia na igreja nessa época. Eu orei tanto, tanto, que eu consegui levar ele pra igreja. Só que mesmo assim continuava as agressões.”
A história de Viviane ajuda a entender por que romper uma relação violenta nem sempre é simples. A violência pode começar com humilhações, ameaças e controle, antes de chegar às agressões físicas. E, quando se mistura ao medo, à dependência e a referências construídas desde a infância, reconhecer o problema e buscar ajuda pode ser ainda mais difícil.
O Ligue 180, Central de Atendimento à Mulher, gerenciado pelo Ministério das Mulheres, registrou mais de 1 milhão de atendimentos nos primeiros sete meses de 2026. O volume já corresponde a 95% de todos os atendimentos registrados ao longo de 2025. Entre janeiro e julho deste ano, a violência psicológica foi a mais relatada, com mais de 35 mil registros.
Em 2025, quase 70% das denúncias registradas pelo Ligue 180 ocorreram dentro de casa. Um dado que chama a atenção para uma violência que, muitas vezes, permanece escondida justamente no ambiente que deveria oferecer segurança.
Para mulheres que vivem essa situação, o apoio de familiares e pessoas próximas pode fazer diferença. Mas, diante das repetidas tentativas de rompimento, nem sempre quem está ao redor compreende a complexidade desse processo.
A delegada Nathalia Cabral, da Delegacia de Defesa da Mulher, alerta para o risco de a rede de apoio se afastar justamente quando a mulher mais precisa de ajuda.
“Muitas famílias abandonam as vítimas de violência doméstica quando elas estão num ciclo de violência muito repetitivo. E isso é extremamente perigoso, porque muitas vezes a família não tem noção de como é complexo o ciclo da violência, da dependência emocional que essas mulheres, muitas mulheres estão vivenciando. E daí quando a família lava as mãos, quando os amigos próximos lavam as mãos, o agressor passa a ter o controle total sobre essas vítimas, total, é tudo o que ele queria. É quando elas definham, é quando a violência psicológica se torna absoluta. Não tem como pegar a mulher pela mão e levar na delegacia, se ela for maior de idade, [mas] fazer um disque-denúncia, que é sempre anônimo, o 180, a Polícia Civil vai até a casa apurar. Isso de briga de marido e mulher não se mete a colher? Negativo. Chama a polícia, sim.”
Além da denúncia e das medidas de proteção, o acesso a serviços de acolhimento pode ajudar a mulher a reconstruir a própria história.
É nesse contexto que entra o projeto Florescer, implementado pelo CRAMI, o Centro Regional de Atenção aos Maus-Tratos na Infância, com apoio da Fundação FEAC.
A iniciativa atende mulheres em situação de violência na região noroeste de Campinas, incluindo bairros como Jardim Bassoli, Parque Valença e Residencial Sirius.
O trabalho busca oferecer escuta, fortalecer a autoestima e ajudar essas mulheres a reconhecer os direitos e construir novas possibilidades para o futuro.
Laís Vieira, analista de projetos da Fundação FEAC, explica por que esse processo também precisa considerar as condições financeiras e sociais de cada mulher.
“É sempre importante a gente pensar numa atuação mais integrada, né, que combine ali outras políticas, principalmente políticas sociais que consigam ajudar essa mulher a sair, romper com esse ciclo de violência, né? Então, a violência doméstica, familiar, ela não vem isolada. Ela sempre vem, em sua maioria, vinculada a alguma outra demanda social. E no geral, a gente sempre encontra casos de mulheres que têm uma dependência, principalmente financeira. Então a gente precisa olhar também para as políticas de geração de trabalho e renda para que, de fato, essas mulheres tenham condições materiais de romper ali com os ciclos de violência. Esse é um exemplo, mas a gente poderia elencar outros exemplos de outras demandas sociais que essas mulheres, com certeza, enfrentam. Então, não adianta a gente denunciar, afastar o agressor, mas também não dar condições e autonomia financeira para que essas mulheres consigam sobreviver, consigam prosperar e romper. E ressignificar também esse capítulo da história delas.”
Criado em 2021, o Florescer passou por atualizações em 2022 e 2025. Desde o início, cerca de 40 mulheres já foram atendidas. Atualmente, dez participam do grupo.
Viviane conheceu o projeto em 2021, quando tentava recomeçar depois do divórcio. Ela havia conseguido um novo emprego e se mudado para um apartamento com os três filhos. Era o início de uma nova fase, mas reconstruir a vida exigia também recuperar a confiança em si mesma.
Nos encontros do Florescer, ela encontrou mulheres com histórias semelhantes e um espaço para falar sobre o que tinha vivido.
“Eu contava a minha história, chorando, as pessoas não entendiam nada. Hoje eu conto a minha história, falo normal, não choro. É uma história de vida e dentro dessa história tem fruto, entendeu? Tem cicatriz, mas você pode fazer dela também um fruto doce, não viver só no amargo, sabe? É desse jeito que eu falo para as mulheres.”
Ana Carolina Ortolani, secretária adjunta da Secretaria de Políticas para as Mulheres de Campinas, diz que um dos grandes desafios é que a mulher receba informações sobre os direitos e serviços oferecidos.
“Um dos grandes desafios é que a informação e as políticas de proteção cheguem a todas as mulheres do município, especialmente aquelas que têm alguma, buscam ajuda, têm alguma dificuldade, ou aquelas que não conhecem os serviços que o município tem.”
A violência dentro de casa também pode atingir crianças e adolescentes que sofrem agressões ou presenciam a violência contra a mãe. No caso de Viviane, o filho também foi vítima de agressões do pai.
Para proteger crianças e adolescentes nessas situações, a Lei Federal número 13.431, de 2017, estabeleceu mecanismos específicos de atendimento a vítimas e testemunhas de violência, com procedimentos voltados à proteção e à prevenção da revitimização.
A ‘Escuta Protegida’ busca qualificar esse atendimento. Em Campinas, a aplicação da Lei da Escuta Protegida é norteada por um guia, que teve como parceiro também a Fundação FEAC.
Romper o ciclo da violência não acontece da mesma forma para todas as mulheres. É um processo que pode exigir tempo, apoio, segurança e condições para recomeçar.
Viviane cresceu acreditando que uma mulher precisava suportar o sofrimento para manter um casamento. Hoje, usa a própria história para ajudar outras mulheres a descobrir que existe outro caminho.
Porque romper o ciclo da violência não significa apenas interromper as agressões. Significa também ter apoio para reconstruir a vida, recuperar a autonomia e voltar a acreditar no futuro.
“Que sempre há uma luz no, no fundo do, do túnel. Sempre tem uma luz para acreditar nelas, acreditar. É, hoje eu sou uma pessoa completamente diferente, diferente do que eu era. Graças a Deus e também esse grupo de mulheres que me ajudou muito a me desenvolver, até mesmo na fala, porque antes eu não falava muito. E hoje eu, eu consigo falar.”
