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Dia das Crianças: referência no conserto de brinquedos, oficina em Campinas preserva histórias de gerações

Qual brinquedo marcou a sua infância? Talvez você consiga lembrar até do som: O barulho do Autorama, o trem do Ferrorama correndo pelos trilhos, o sininho de um Papai Noel,

Dia das Crianças: referência no conserto de brinquedos, oficina em Campinas preserva histórias de gerações
Foto: Aline Albuquerque/CBN Campinas

Qual brinquedo marcou a sua infância? Talvez você consiga lembrar até do som: O barulho do Autorama, o trem do Ferrorama correndo pelos trilhos, o sininho de um Papai Noel, ou os bipes de um R2-D2.

Alguns brinquedos ficam guardados por décadas. E quando voltam a funcionar, não é só a criança que ganha um presente de volta. É a memória de uma infância que reaparece.

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Em Campinas, existe uma loja que há quase 40 anos vive justamente dessas histórias.

“Começou eu trabalhando na fábrica da Estrela na década de 70. Depois eu saí e montei aqui em Campinas há 39 anos…”

Valdemar Rodrigues Gonçalves, o Peleu, tem 70 anos. Antes de abrir a própria loja, trabalhou na fábrica da Estrela, na década de 70. Hoje, ele conserta brinquedos de diferentes épocas. Só os cadastros feitos na loja, desde 2010, já registram a passagem de 49 mil pessoas pela empresa. 49 mil crianças que voltaram a sorrir com um brinquedo consertado em mãos.

“No último cadastro que eu tenho… De 2010 para cá, nós temos registrado 49 mil pessoas que passaram por aqui. Antes disso era tudo no papel, então não tenho mais esses registros.”

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Entre os clientes está o advogado Marco Aurélio Moraes. Ele levou à loja um R2-D2 para consertar. O robô de Star Wars estava guardado há anos e fazia parte do acervo de brinquedos da família. Agora, vai voltar são e salvo para as mãos do filho dele, Vinicius, de sete anos.

“Eu trouxe esse R2-D2, de Star Wars, porque a bateria vazou e acabou danificando. Então eu trouxe para o Peleu tentar restaurar para o Vinicius.”

Dia das Crianças: referência no conserto de brinquedos, oficina em Campinas preserva histórias de gerações
Foto: Aline Albuquerque/CBN Campinas

O pensamento mais comum poderia ser comprar outro. Mas a família preferiu recuperar aquele brinquedo que já tinha história.

“Não, porque tem todo um aspecto afetivo do brinquedo. Então, para a gente, faz mais sentido restaurar do que comprar um novo.”

E não é a primeira vez que Marco faz isso. Ele conta que leva brinquedos para o Peleu há mais de dez anos. Já passaram pela loja um Autorama, um Ferrorama e brinquedos do Patati Patatá.

“Eu trago brinquedos para ele há mais de dez anos. Já trouxe Patati Patatá, Autorama, Ferrorama. Ele é uma referência, dá muita segurança aqui em Campinas.”

Para explicar esse vínculo, Marco encontrou uma definição curiosa para a loja.

“Até falei para o meu filho que a gente estava indo no pronto-socorro do brinquedo…”

E talvez seja mesmo. Na oficina do Peleu, brinquedos antigos continuam recebendo uma segunda chance. São brinquedos de todos os tipos, dos mais novos aos mais antigos. Bonecas dos anos 80, carrinhos, caminhão dos Bombeiros, brinquedos importados e até um Papai Noel da década de 70, que anda e toca um sininho.

Entrar na loja é praticamente uma espécie de viagem no tempo. E muitas vezes ela acontece dentro da própria família. Essa viagem não é só na própria história, mas das várias outras que aqueles brinquedos da prateleira estão esperando para contar.

Dia das Crianças: referência no conserto de brinquedos, oficina em Campinas preserva histórias de gerações
Foto: Divulgação

“Já aconteceu de vir avó, mãe e neta. A pessoa fala: ‘Foi da minha avó, foi da minha mãe, agora eu quero pra mim e o senhor tem que arrumar’.”

O brinquedo que foi da avó passa para a mãe. Depois, chega às mãos da criança. E de um jeito rápido, com criatividade, ganha um novo significado.

Mas preservar o brincar não significa apenas guardar brinquedos antigos. A brincadeira tem uma função importante no desenvolvimento da criança. Quem explica é Elaine Assolini, psicopedagoga e docente do Departamento de Educação da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto, da USP.

“Por meio do brincar, as crianças desenvolvem a imaginação, a criatividade, a linguagem. Elas aprendem a interagir com outras crianças e também com os adultos.”

Quando brinca, a criança precisa imaginar, criar regras, interagir, negociar. E também lidar com situações que não saem como ela esperava. É aí que aparece outro aprendizado importante: a frustração.

“O brincar também ajuda a criança a aprender a lidar com a frustração, com os diferentes nãos que ela vai encontrar ao longo da vida.”

Na brincadeira, não existe necessariamente um roteiro pronto. A criança pode inventar uma história, mudar uma regra, transformar um objeto em outra coisa. Pode perder. Pode discutir. Pode tentar de novo.

“A criança precisa experimentar esse inesperado, esse inédito, essa possibilidade polissêmica que o brincar traz. Ela inventa, ela transforma o brinquedo. Ela é um sujeito ativo.”

Impacto das telas

E essa experiência acontece de uma maneira diferente quando a criança passa muito tempo diante de uma tela. No Brasil, segundo levantamento da Fundação Maria Cecilia Souto Vidigal em parceria com o Datafolha, 78% das crianças de zero a três anos têm contato diário com telas. Entre quatro e seis anos, o índice chega a 94%.

Mas discussão não é simplesmente colocar o brinquedo de um lado e a tecnologia do outro. É preciso entender quanto espaço a tela ocupa e o que ela pode acabar substituindo na rotina da criança. Para a especialista, uma das riquezas do brincar está justamente nas situações inesperadas que surgem durante a interação.

“O dia a dia, o brincar na escola, o brincar dentro de casa, traz o inesperado, traz o imprevisto, traz aquilo que não está no script.”

E existe ainda outro personagem importante nessa história: o adulto. Pais, avós, professores e responsáveis têm papel fundamental para acompanhar a criança enquanto ela brinca.

“Os pais e os adultos têm um papel inestimável. A criança procura o outro para interagir, ela espera respostas.”

É na interação com o outro que a criança também aprende a elaborar aquilo que vive. Por isso, a especialista defende que a escola, principalmente na educação infantil, também precisa preservar esse espaço.

“O brincar e as brincadeiras, eles são constitutivos da infância.”

Peleu, que há quase quatro décadas acompanha essas transformações, também percebe que a infância mudou. Mas ele não acredita que o brinquedo esteja perdendo espaço.

“Esse produto aqui é um produto antigo, mas para uma criança que nasce hoje, ela é novidade.”

Nas vésperas do Dia das Crianças, a procura pela loja aumenta. Muitas vezes, são brinquedos que estavam esquecidos. Outras vezes, são presentes que passaram de uma geração para outra, ou aqueles que simplesmente precisam voltar a funcionar.

Talvez seja essa a maior especialidade do Peleu. Não apenas consertar brinquedos. Mas devolver às pessoas uma parte daquilo que elas viveram.

“Me sinto uma criança. Um velho meio idiota, mas com um sorriso. O importante é isso.”

Alguns brinquedos até “envelhecem”, mas brincar continua sendo uma das maneiras mais antigas, e importantes, da criança descobrir o mundo.

Dia das Crianças: referência no conserto de brinquedos, oficina em Campinas preserva histórias de gerações
Foto: Aline Albuquerque/CBN Campinas

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