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Aos 21 anos, Thaís Fernanda Ribeiro teve a vida interrompida de forma violenta. Em 10 de maio de 2019, ela foi assassinada a tiros, em Campinas, pelo ex-namorado, que não aceitava o fim do relacionamento. O suspeito se entregou à Polícia Militar em uma base de Santo André, na manhã seguinte.
A morte de Thaís deixou marcas profundas na família. Para o pai da jovem, Delfino José Ribeiro, a perda também representou uma mudança na forma de enxergar o mundo e compreender a violência contra a mulher. Foi depois do assassinato da filha que ele conheceu o significado da palavra feminicídio e passou a se dedicar a uma luta para evitar que outras famílias enfrentem a mesma dor.
Três meses depois do crime, Delfino transformou uma área verde na entrada do Jardim São Marcos, onde mora, em um espaço de memória e acolhimento. O jardim foi criado inicialmente como uma homenagem à filha, mas, com o tempo, passou a representar também a dor de outras famílias atingidas pela violência de gênero.
No local, ele mantém viva a lembrança de Thaís e desenvolve um trabalho de escuta e apoio a moradores e familiares de vítimas de feminicídio. Com a ajuda de profissionais que se unem à causa, entre eles psicólogos, Delfino acolhe pessoas que perderam mães, filhas, irmãs, tias e amigas para a violência.
A iniciativa, que começou como uma mobilização pessoal, ultrapassou os limites do bairro. Delfino passou a receber convites para participar de palestras e encontros em diferentes cidades do interior paulista, compartilhando a história da filha e alertando sobre a violência contra a mulher.
O contato é permanente, e o pai de Thaís mantém o telefone disponível 24 horas para atender quem precisa conversar ou buscar apoio.
Violência contra a mulher: parceiros e ex-parceiros aparecem entre os principais autores
A história de Thaís não é um caso isolado. Em Campinas, foram registradas 6.818 notificações de violência contra mulheres de 18 a 59 anos entre 2019 e 2024.
No acumulado dos seis anos, o cônjuge ou ex-cônjuge aparece como autor em 2.872 registros, o equivalente a 42,1% do total informado para essa categoria.
Os números são do último boletim SisNov – Sistema de notificações de violência em Campinas.
Os dados nacionais também revelam a dimensão do feminicídio no país. O Anuário Brasileiro de Segurança Pública de 2026, do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, com dados de 2025, aponta que 65,1% das vítimas eram mulheres negras. Mais da metade, 56,5%, tinha entre 25 e 44 anos.
A residência foi o local do crime em 62,5% dos casos. Em relação aos autores, 60,9% eram parceiros íntimos e 18,9%, ex-parceiros. Outros 12,1% eram familiares.
Para a psicóloga forense Maria de Fátima Franco dos Santos, o sentimento de posse, associado ao machismo, pode contribuir para situações de violência, principalmente quando a mulher decide romper o relacionamento e exercer a própria autonomia.
Segundo a especialista, quando o homem enxerga a mulher como alguém que deve obedecer às vontades dele, as decisões dela podem ser interpretadas como uma ameaça. Por isso, o enfrentamento da violência também exige questionar comportamentos e ideias que reforçam a desigualdade entre homens e mulheres.
Educação e mudança de comportamento começam na infância
A prevenção da violência de gênero não deve começar apenas depois que os conflitos aparecem na vida adulta. A forma como meninos e meninas são educados, os exemplos que recebem em casa e as expectativas criadas sobre o papel de cada um também fazem parte dessa discussão.
Maria de Fátima destaca a educação como um caminho fundamental para a construção de uma sociedade mais igualitária. Para ela, é importante evitar que crianças cresçam reproduzindo comportamentos de superioridade e desrespeito, muitas vezes observados dentro do próprio ambiente familiar.
Delfino também acredita que essa transformação precisa começar cedo. O pai de Thaís defende que meninos e meninas aprendam desde a infância que têm os mesmos direitos e que não existem atividades, brinquedos ou responsabilidades exclusivos de homens ou mulheres.
Na avaliação dele, é necessário estimular os meninos a desenvolverem comportamentos mais respeitosos, carinhosos e participativos, além de desconstruir atitudes machistas que ainda são reproduzidas na sociedade.
Ações comunitárias ajudam a fortalecer a prevenção
No Jardim São Marcos, a mobilização de Delfino conta com o apoio da Fundação FEAC, por meio da iniciativa Desenvolve Amarais, voltada ao desenvolvimento territorial da região dos Amarais, em Campinas.
A proposta é fortalecer lideranças e iniciativas que surgem nos próprios bairros e podem contribuir para enfrentar problemas coletivos. No caso da violência de gênero, o trabalho também envolve a criação de espaços de diálogo e a reflexão sobre comportamentos que muitas vezes são naturalizados desde a infância.
Para o coordenador de projetos da Fundação FEAC, Rodrigo Correa, envolver meninos e jovens nessa discussão é fundamental para prevenir comportamentos violentos no futuro.
Ele explica que a construção das diferenças entre homens e mulheres começa ainda na infância, inclusive nas brincadeiras e nas responsabilidades atribuídas a cada um. Enquanto meninos costumam ser incentivados a brincar com armas e reproduzir relações de força, meninas são frequentemente associadas ao cuidado com a casa e com outras pessoas.
Segundo o coordenador, é necessário questionar essas expectativas e mostrar que tarefas domésticas e responsabilidades familiares devem ser compartilhadas. Ao mesmo tempo, meninas precisam ser incentivadas a buscar oportunidades e desenvolver a própria autonomia.
Para ele, reconhecer e transformar essas desigualdades é um passo importante para mudar a concepção das relações entre homens e mulheres e evitar situações de violência.
A prevenção, portanto, depende de um esforço coletivo, que envolve famílias, escolas, serviços públicos e comunidades. Também exige a participação dos homens, com o reconhecimento de comportamentos machistas e o compromisso com relações baseadas no respeito e na igualdade.
A história de Delfino mostra como uma tragédia pode mobilizar uma comunidade e transformar a dor em uma iniciativa de conscientização e acolhimento.
O sonho do pai de Thaís é que, no futuro, os casos de feminicídio deixem de fazer parte da realidade das famílias brasileiras. Ele espera que os homens mudem de comportamento, que as mulheres possam viver sem medo e que a sociedade se transforme em um lugar mais seguro para todos.



