Nem mesmo as mensalidades em dia poupam alguns clientes de planos de saúde de problemas bastante graves.
A Bianca é mãe do pequeno Enrico, que antes mesmo de nascer já havia sido diagnosticado com uma síndrome rara e de má-formação dos órgãos. Muitos médicos acreditavam que ele não teria chances de sobrevivência.
“A gente precisava que ele fizesse essa cirurgia, mas não sei por qual motivo ficavam enrolando e não liberavam ele para a transferência, onde foi dito que era necessária essa cirurgia. Abri uma reclamação na ANS, além de outra já aberta, que falava que meu filho precisava dessa cirurgia e que a gente queria uma posição do hospital. Foi onde eles fizeram as coisas se mexer, mas depois de oito meses”, descreveu.
Enrico nasceu, passou quatro meses entubado, e além da condição, também precisou lutar contra barreiras criadas pelo próprio plano de saúde, a Notre Dame Intermédica Hapvida.
Bianca acionou a Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS) para conseguir uma transferência de hospital, o acesso a insumos básicos e cirurgias.
O plano afirmava que Enrico poderia ser atendido em clínicas, mas a família e os médicos rebatem, e afirmam que há risco para uma criança que depende de ventilação mecânica. Nesse caso, o mais recomendado seria ao tratamento em casa.
“O Enrico saiu da primeira internação com home care autorizado, enfermagem 24 horas, fisioterapia diária e fonoaudiologia duas vezes por semana. Atualmente, eles falavam ‘por boca’ que o home care tinha sido cancelado, e que não ia mais ser liberado. Isso sendo que ele é dependente de ventilação mecânica, é uma criança de alta complexidade, precisa ter alguém o tempo inteiro vendo os dispositivos, o que ele está fazendo, tudo certinho”, contou.
Aumento de reclamações contra planos
Dados do Procon-SP mostram que 15.799 queixas foram registradas contra planos de saúde em 2025 no estado de São Paulo, uma alta de 5,3% em relação ao ano anterior.
A Notre Dame Intermédica Hapvida, plano do pequeno Enrico, lidera o ranking de reclamações, com 1.303 denúncias registradas em 2025. Neste ano, até 13 de março, foram 395 registros.
Entre as reclamações mais comuns estão a não prestação de serviços, as cobranças indevidas, a demora excessiva e dificuldades no processo de reembolso.
O advogado especialista em Direito da Saúde, Rodrigo Calderari, avalia que o problema vai além da burocracia, e que alguns planos parecem adotar uma estratégia arriscada: a de que é mais vantajoso esperar um cliente entrar com um processo do que autorizar o tratamento de imediato.
“A negativa dos planos tem se tornado muito comum, em primeiro lugar, por uma grande dúvida que acontecia em relação ao rol de procedimentos da ANS, ou seja, uma dúvida se ele era autorizado pela Agência, o que fazia com que os planos negassem o atendimento. E aí uma profusão de ações judiciais para serem obrigados a custear o tratamento, o medicamento, o que quer que fosse. Parece que alguns planos, pelo que a gente vê aqui no escritório, adotam a negativa e o descumprimento de ordens judiciais como uma política, como se fosse mais barato litigar no Poder Judiciário do que efetivamente cumpri-las”, observa.
O Enrico teve alta na quarta-feira (6), e já recebeu suporte da operadora Notre Dame Intermédica Hapvida para o tratamento em casa, bem como os insumos para o tratamento.
O que diz a Hapvida
Por meio de nota, a operadora de saúde declarou seguir rigorosamente as normas da ANS e os critérios técnicos do setor para a autorização dos procedimentos, com avaliação individualizada em cada caso.
Sobre o elevado número de queixas, a Notre Dame Intermédica Hapvida afirma que o volume corresponde a 0,03% do total de beneficiários do estado, e que o índice não reflete uma insatisfação generalizada com os serviços.
Com informações da EPTV Campinas
