A decisão de colocar um DIU (dispositivo intrauterino) costuma vir acompanhada de uma expectativa: a de contar com um dos métodos contraceptivos mais eficazes disponíveis. Mas, para muitas mulheres, essa escolha também vem acompanhada de outra preocupação: a dor durante a inserção.
A advogada Jéssica Ferreira conhece bem essa sensação. Ela decidiu colocar o dispositivo pelos benefícios que ele oferece, mas lembra que o procedimento foi marcado por dor e desconforto.
Nos últimos anos, relatos como o dela passaram a ganhar espaço nas redes sociais e ajudaram a ampliar a discussão sobre como a dor durante a inserção do DIU é tratada nos serviços de saúde. Agora, um estudo desenvolvido por pesquisadoras da Unicamp, em Campinas, traz dados que ajudam a dimensionar essa realidade.
A pesquisa acompanhou 7.286 mulheres que colocaram o DIU no Hospital da Mulher da Unicamp, o Caism, entre 2022 e 2024. Dessas, 5.891- o equivalente a 81% – relataram dor moderada ou intensa durante o procedimento. O dado contrasta com um protocolo do Ministério da Saúde, que menciona dor em menos de 5% dos casos. As pesquisadoras afirmam que não encontraram estudos nacionais que justifiquem esse percentual.
Para a professora da Faculdade de Ciências Médicas da Unicamp e ginecologista do Caism, Cássia Raquel Teatin Juliato, a pesquisa ajuda a colocar luz sobre um tema que há muito tempo faz parte da rotina dos consultórios, mas nem sempre recebe a atenção necessária.
“Nenhuma dor deve ser menosprezada. A paciente tem que ser bem atendida, acolhida e os profissionais de saúde precisam entender que esse é um procedimento que envolve algum grau de dor em quase todas as mulheres. Não pode ser banalizado como um procedimento totalmente tranquilo.”
Segundo a pesquisadora, esse cuidado começa antes mesmo da inserção. A ansiedade e o medo podem aumentar a percepção da dor. Por isso, orientar a paciente, explicar cada etapa do procedimento e garantir que ela será ouvida durante todo o atendimento fazem diferença.
Além disso, existem medidas que podem reduzir o desconforto, como o uso de analgésicos e anti-inflamatórios, bolsa de água quente e, em alguns casos, anestesia local no colo do útero. Também há pesquisas que avaliam mudanças no ambiente e novas técnicas para tornar a inserção mais confortável.

“A paciente precisa se sentir acolhida e segura para fazer o procedimento. Segura de que, se ela tiver uma dor muito importante, o procedimento vai ser interrompido. Ela não é obrigada a passar por um procedimento até o fim.”
Apesar da discussão sobre a dor, a professora reforça que isso não significa colocar em dúvida a eficácia do DIU. Pelo contrário. Ampliar o acesso ao método também é uma estratégia importante para reduzir a gravidez não planejada.
Outro estudo desenvolvido pelo mesmo grupo de pesquisa mostrou que quase 66% das gestações avaliadas no estado de São Paulo não foram planejadas, um índice considerado alto mesmo em uma região com ampla oferta de serviços de saúde.
Os próprios resultados da pesquisa ajudam a colocar o debate em perspectiva. Apesar do desconforto durante a inserção, mais de 90% das mulheres disseram que voltariam a colocar o DIU e também indicariam o método para uma amiga.
Para a professora Cássia Juliato, o desafio agora é encontrar formas de reduzir a dor sem criar novas barreiras para quem deseja usar o método.
“A gente quer arrumar um jeito de resolver a dor da mulher, mas também não quer que as pacientes tenham medo de colocar o DIU.”
A principal conclusão das pesquisadoras é que discutir a dor não significa desencorajar o uso do DIU. O objetivo é garantir que as mulheres tenham acesso a informações claras, sejam acolhidas durante o procedimento e possam fazer uma escolha consciente e segura sobre a própria saúde reprodutiva.

