A Justiça Federal retirou, nesta quarta-feira (4), o sigilo do processo que investiga o acidente da Voepass, que matou 62 pessoas em Vinhedo, em agosto de 2024.
O documento, que tem mais de 81 mil páginas, traz um diálogo entre uma comissária de bordo e um ex-mecânico da companhia aérea, que revelou preocupações sobre as condições das aeronaves.
As mensagens foram encontradas no celular da comissária de bordo Rúbia Silva de Lima, uma das vítimas do desastre. O aparelho foi recuperado pela perícia, no local da tragédia em Vinhedo.
Um dos diálogos ocorreu em novembro de 2022, quando Rúbia conversou com o ex-mecânico Alex de Souza Leandro, que é um dos 12 réus no processo que investiga a queda do avião.
Alex declara que “os aviões só não caíam porque Deus gostava muito deles”. Para o Ministério Público Federal, a fala reforça a tese de que o acidente de Vinhedo foi o “desfecho previsível de um processo continuado de omissões deliberadas”.

Em outro trecho de conversa, de junho de 2024, uma colega relatou a Rúbia, também por mensagem, que um voo foi realizado sob calor insuportável.
A profissional declara: “Que absurdo, Rubinha, insistir para fazer o voo nesse calor. Avião quente, não tava nada fresco. Nada. Tava quente. Eu fiquei chocada assim, sabe? Não. Nada me choca mais. Como tem coragem de colocar pessoas no avião”.
Em outros diálogos, em julho de 2023 e em julho de 2024, eles afirmam que aeronaves estariam “dando trabalho o dia inteiro”, bem como estariam “toda cheia de pane”.
No relatório enviado à Polícia Federal, o Núcleo de Inteligência Policial também afirma que algumas conversas entre Rúbia e colegas de profissão evidenciam “o descaso da Voepass com a manutenção das aeronaves”. O grupo também argumenta que essa cultura organizacional era conhecida em praticamente todos os níveis.
O que dizem os citados
Os advogados que representam o ex-mecânico Alex de Souza Leandro declararam, por nota, que estão na fase de apresentação da defesa e que vão se pronunciar nos autos.
A Voepass afirmou que vai continuar colaborando com a Justiça e com as demais autoridades. Leia a íntegra da nota no final da matéria.
“Cultura de não-reporte”
A queda do ATR-72-500 da Voepass, em 9 de agosto de 2024, matou 58 passageiros e quatro tripulantes. O voo 2283 decolou de Cascavel e seguiria até o Aeroporto de Guarulhos, mas caiu no quintal de uma casa na cidade de Vinhedo, após perder o controle no início do procedimento de pouso.
Um relatório do Instituto Nacional de Criminalística, da Polícia Federal, apontou a existência de uma cultura de omissão de panes técnicas em livros de manutenção das aeronaves, com o objetivo de impedir que as aeronaves deixassem de voar.
Dentre as causas do acidente, o órgão apontou problemas no sistema de degelo das asas do avião PS-VPB, que prejudicaram as condições de sustentação do avião no ar.
Réus na Justiça Federal
O processo judicial do acidente tem 12 réus, incluindo diretores e líderes da equipe de manutenção da Voepass. Eles vão responder pelos crimes de atentado contra a segurança do transporte aéreo e Sinistro em Transporte Aéreo.
O grupo responde pela queda e pelo risco ao qual passageiros e tripulantes foram submetidos em três voos realizados pela mesma aeronave antes do acidente.
Leia a íntegra do posicionamento da Voepass
“A VOEPASS entende que, com o recebimento da denúncia pela Justiça Federal, o processo seguirá os trâmites previstos em lei, assegurando às partes envolvidas.
A companhia seguirá colaborando com o Poder Judiciário e com as demais autoridades competentes, fornecendo os documentos e as informações que forem solicitadas ao longo do processo.
Ao longo de mais de três décadas de atuação na aviação brasileira, a VOEPASS manteve a segurança operacional como princípio fundamental, com procedimentos de manutenção, operação e treinamento orientados pela regulamentação aeronáutica e por suas diretrizes internas de segurança e conformidade.
A defesa de José Luiz Felício Filho informa que tomou conhecimento do recebimento, pela Justiça Federal, da denúncia apresentada pelo Ministério Público Federal e que se manifestará nos autos, no momento adequado, exercendo plenamente as garantias constitucionais do contraditório, da ampla defesa e do devido processo legal.
À época do acidente com o voo 2283, Felício integrava o Conselho da VOEPASS e estava afastado da gestão direta e cotidiana da operação, tendo retomado a gestão executiva após o acidente.
Felício tem colaborado com as autoridades desde o início das apurações e seguirá à disposição da Justiça para contribuir com o completo esclarecimento dos fatos.
O executivo mantém sua confiança no devido processo legal e reitera seu respeito às autoridades e sua solidariedade aos familiares das vítimas do voo 2283.”
Com informações do g1 Campinas e da EPTV Campinas
