Imagine a seguinte situação: você quer atravessar uma rua, mas o semáforo está fechado para os pedestres. Não há nenhum carro vindo, mas o semáforo continua fechado. O que você faz?
A operadora de caixa Marina Sayuri diz evitar o perigo da travessia, mas aquela pressa do início da manhã nem sempre deixa ela parar na faixa antes do sinal verde.
“No geral eu respeito, por questão de segurança, ainda mais no Centro que é muito corrido. Mas tenho que ser sincera: nessa ruazinha aqui da frente, como ela é menor e o movimento não é tão grande, e às vezes na pressa, eu acabo atravessando mesmo e não prestando tanta atenção”, admite.
Mas esse “vai dar” sempre é um risco. Na terça-feira (21), mais um atropelamento terminou com um idoso ferido no cruzamento da Avenida Benjamin Constant e da Rua Barão de Jaguara, no Centro de Campinas.
Ele iniciou a travessia de uma calçada para a outra da Benjamin quando o sinal de pedestres estava fechado, e acabou sendo arremessado ao chão. O homem foi socorrido à UPA São José. O caso foi registrado como lesão corporal culposa na direção de veículo automotor.
A consultora ótica Jeniffer Silva diz que a imprudência é frequente na região.
“A gente que trabalha aqui na ótica sempre presencia. Chegando aqui no trabalho eu vi um caso desse: eu vi, o moço foi e atravessou, e o semáforo tinha acabado de abrir para os carros. Isso é muito perigoso. A gente que é mais novo consegue correr e tudo, mas não é o adequado. O idoso tem dificuldade no andar e mesmo assim se arrisca”, conta.
Em 2025, a Emdec registrou 124 atropelamentos, com 22 vítimas fatais entre os pedestres.
Ao longo do primeiro semestre deste ano, foram 47 casos, com quatro vítimas fatais, também entre pedestres.
Ainda de acordo com a Emdec, as condutas de risco são analisadas nas ocorrências fatais. No ano passado, um caso terminou em morte durante uma travessia no sinal vermelho para o pedestre. Outras 15 ocorrências também envolveram condutas inadequadas do pedestre. Um caso de conduta inadequada já foi registrado em 2026.
Atravessar fora da faixa, sem atenção ou sem visibilidade são alguns dos exemplos de condutas inadequadas. O advogado especialista em Trânsito, Mobilidade e Segurança, Renato Campestrini, lembra que pedestres e veículos, motorizados ou não, devem compartilhar um mesmo nível de respeito.
“Muita gente acha que o fato de ser pedestre tira a obrigação dele de seguir as normas de trânsito, que elas só se aplicam para os veículos motorizados ou não. Isso é um grande equívoco. A partir do momento em que a gente coloca o pé para fora de casa, a gente passa a fazer parte do trânsito, ele tem que se sujeitar às regras do Código. Com relação ao pedestre, ele deve sempre atravessar: se tiver semáforo, em locais até 50 metros de distância indo até o semáforo ou faixa. Além de realizá-la da forma correta, atento à movimentação dos demais veículos e à proximidade”, orienta.
O advogado também pontua que a segurança do pedestre passa pelo cuidado com a própria vida. É preciso ver se há outros automóveis vindo e garantir que o pedestre também está sendo visto.
“Ainda que o pedestre seja o elo mais fraco da cadeia do trânsito, ele também precisa tomar providências para evitar se colocar em situações de risco. Ou até mesmo ocasionar situações que venham a colocá-lo em risco. Como o trânsito é um espaço que necessita harmonia entre as pessoas, é preciso que tenha esse contato visual, que tenha esse senso de preservação, de percepção do risco envolvido com a movimentação para não se colocar em situação delicada”, observou.
Talvez o melhor exemplo seja o da babá Júlia Caroline, que fincou os pés antes da faixa de pedestres, aguardando o sinal verde, mesmo que fosse a última a atravessar.
“E eu acho super importante respeitar a sinalização. Ainda mais hoje em dia com tantos perigos. As pessoas têm que ter mais empatia e respeitar. É isso mesmo”, opinou.
Segundo a Emdec, uma parceria com o Detran/SP durante o Maio Amarelo realizou uma série de atividades de conscientização, com abordagens educativas de pedestres e condutores em pontos críticos, atividades interativas e entrega de materiais de orientação.
