Rede de acolhimento fortalece mulheres no enfrentamento à violência doméstica em Campinas
Existem casas que guardam segredos atrás de portões trancados e muros altos. Nos bairros de Campinas, a violência nem sempre deixa marcas na pele. Às vezes, ela se esconde no
Projeto Trilhando Caminhos é desenvolvido no CPTI, na zona norte de Campinas. Foto: CPTI/Reprodução
Existem casas que guardam segredos atrás de portões trancados e muros altos. Nos bairros de Campinas, a violência nem sempre deixa marcas na pele. Às vezes, ela se esconde no controle exaustivo, na humilhação diária, na crença silenciosa de que “homem é assim mesmo”.
Mas o que acontece quando uma mulher decide que, depois de quase meio século, a vida ainda tem cor? Ilda Saleti da Mota passou 48 anos casada. E, durante boa parte desse tempo, aprendeu a suportar o que acontecia dentro de casa.
“No casamento eu estava passando muito sofrimento, tipo violência, agressão, sabe, a pessoa muito autoritário. E há muitos anos, são 48 anos de casada, eu estava sempre aguentando, sempre aguentando.”
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Aos poucos, as ofensas se misturaram à rotina. Conviveu com humilhações que, durante muitos anos, não reconhecia como violência. Até que encontrou alguém com quem conseguiu falar sobre o que vivia. Ela já frequentava atividades de ginástica no CPTI, instituição de assistência social que atua na região norte de Campinas.
Foi ali que conheceu uma assistente social. Ilda se lembra de ter procurado a profissional depois de uma das atividades, quando percebeu que poderia confiar nela.
“Aí eu chamei ela, eu falei, é com você mesmo que eu quero conversar. Ela chamou eu, a gente começou a conversar, eu me abri com ela, fui falando com ela, aí eu senti assim, né, uma confiança muito nela.”
Ilda é uma das mulheres impactadas pelo projeto. Foto: Aline Albuquerque/CBN Campinas
O atendimento a mulheres como Ilda faz parte do Trilhando Caminhos, projeto desenvolvido pelo CPTI com apoio da Fundação FEAC. Desde setembro de 2023, a iniciativa oferece acolhimento, orientação jurídica, acompanhamento psicológico, rodas de conversa e oficinas de geração de renda. Também encaminha as participantes para serviços públicos de saúde, assistência social e proteção às mulheres.
Segundo o balanço da equipe, quase 200 mulheres já foram alcançadas pelas atividades. Algumas chegam depois de uma agressão física. Outras procuram ajuda por motivos diferentes e, durante o acompanhamento, começam a reconhecer situações de violência que faziam parte da rotina.
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A coordenadora técnica do Trilhando Caminhos, Clarice Carlota, explica que a dependência financeira costuma estar acompanhada de outra dificuldade: o medo de não conseguir sobreviver sem o companheiro.
“Acredito que uma das maiores dificuldades é a dependência financeira e daí tem a dependência emocional também, de não acreditar que dá conta, de acreditar que precisa dessa pessoa na vida delas porque não vai conseguir sobreviver. Eu acho que elas passam a vida inteira ouvindo isso: você não vai ser nada sem eu, você não vai conseguir sobreviver, que elas interiorizam isso.”
Números da violência
Em Campinas, foram concedidas 1.868 medidas protetivas entre janeiro e agosto de 2026. Segundo o Tribunal de Justiça de São Paulo, isso representa mais de 7 medidas por dia, em média. Essas decisões podem determinar o afastamento do agressor e proibir que ele se aproxime ou mantenha contato com a mulher ameaçada.
No primeiro semestre deste ano, as regiões policiais de Campinas e Piracicaba registraram 23 feminicídios, segundo dados da Secretaria de Segurança Pública. Os registros mostram a dimensão de um problema que, em muitos casos, começa muito antes de chegar à polícia ou à Justiça.
A iniciativa oferece acolhimento, orientação jurídica, acompanhamento psicológico, rodas de conversa e oficinas de geração de renda para mulheres. Foto: CPTI/Reprodução
Para Ilda, foram necessárias décadas até que ela reconhecesse a violência e decidisse pedir o divórcio. Com orientação jurídica e acompanhamento, conseguiu formalizar a separação.
“Eu não tive sentimento, eu tive assim, só um, como eu disse, continua tudo do mesmo jeito… Eu não senti, como diz, eu não senti nada não.”
Ilda continua morando na mesma propriedade que o ex-marido, em espaços separados. Mesmo assim, há mudanças importantes na rotina. Desde a separação, Ilda trabalha numa confecção de roupas, recebe o próprio salário e passou a cuidar diretamente de despesas que antes não administrava.
Foi justamente o trabalho que abriu novas possibilidades para outra mulher atendida pelo CPTI. Só que, na história dela, tudo começou com uma receita de pão.
Gessilene Drumond Alves Silva tem 50 anos e é mãe de 4 filhos. Durante muitos anos, ouviu do marido que não deveria trabalhar fora de casa.
“Eu trabalho em casa, nunca trabalhei fora. Devido assim, ao machismo também, mulher minha não trabalha.”
Gessilene cuidava dos filhos e da casa. Fazia artesanato, aprendia a costurar, mas não tinha uma atividade que lhe garantisse renda própria. Até que uma prima se ofereceu para ensinar uma receita de pão.
“Aí ela falou, bora fazer. Você que vai pôr a mão na massa e fazer. Aí fiz e depois comecei a fazer. Faço para vender agora.”
Com a venda dos pães ela passou a ter o próprio dinheiro. Foto: Aline Albuquerque/CBN Campinas
Gessilene continuou fazendo pães. Passou a vender a produção e começou a participar de atividades sobre empreendedorismo. Hoje, também comercializa outros produtos e estuda maneiras de divulgar o trabalho. Nas rodas de conversa do CPTI, encontrou mulheres com histórias parecidas com a dela. Foi nesses encontros que começou a reconhecer o machismo em situações que antes considerava normais.
E o dinheiro que ganhou vendendo pães permitiu uma compra que ela conta com entusiasmo: uma bicicleta rosa. Pagou em parcelas com o próprio dinheiro. Agora, usa a bicicleta para fazer entregas, visitar vizinhas e circular pelo bairro.
Gessilene comprou uma bicicleta com o dinheiro da venda dos pães. Foto: Aline Albuquerque/CBN Campinas
“Através também do pão, eu comprei uma bicicleta, com o dinheirinho, eu paguei, comprei parcelado. Comprei a minha rosinha. Aí eu ando agora com ela para baixo e para cima.”
A renda própria pode fazer diferença para mulheres que convivem com a violência doméstica. Em muitas famílias, o agressor é o único responsável pelo sustento da casa. A possibilidade de uma separação traz também dúvidas sobre como pagar o aluguel, comprar comida e cuidar dos filhos.
Rede de apoio possibilita a denúncia
Laís Vieira, especialista em prevenção a violências da Fundação FEAC, explica que a denúncia é uma parte importante do enfrentamento à violência, mas precisa estar acompanhada de condições para que essas mulheres possam reconstruir a própria vida.
“Não adianta a gente só denunciar, a gente só endereçar, que já é bastante coisa e é muito importante, mas a gente precisa dar condições para que essas mulheres consigam de fato sair desse ciclo de violência. Por exemplo, o agressor pode ser o único provedor de uma família. Se a gente não oferecer uma ajuda financeira, os caminhos para que essa mulher consiga estabelecer a sua autonomia e romper de fato com esse ciclo de violência…”
Laís Vieira é especialista em prevenção a violências da Fundação FEAC. Foto: Aline Albuquerque/ CBN Campinas
A busca por atendimento pós-violência
Os desafios também aparecem no caminho percorrido pelas mulheres em busca de ajuda. Dados do Sistema de Informação de Agravos de Notificação, o Sinan, mostram que, em Campinas, 76% das vítimas de violência atendidas pela rede em 2025 passaram por serviços de saúde, como postos, UPAs e hospitais. A assistência social aparece em seguida, procurada por 45,6%.
Em média, cada mulher recorreu a dois serviços da rede de atendimento. Nesse percurso, muitas precisaram relatar a violência repetidas vezes, enquanto buscavam proteção, cuidados médicos e apoio psicológico.
Desafios da rede
Mas nem sempre o atendimento acontece como deveria. Clarice Carlota, coordenadora do Trilhando Caminhos, relata o caso de uma mulher que precisou de atendimento hospitalar após sofrer violência. Ela foi acompanhada pela equipe até a Delegacia de Defesa da Mulher, mas, segundo a coordenadora, não conseguiu uma vaga em abrigo.
“A rede, que nem sempre acontece no tempo que a gente queria. A gente já teve caso do técnico acompanhar uma mulher na DDM, primeiro no hospital que estava machucada, depois foi para a DDM. A mulher teve que voltar porque não tinha vaga.”
Em nota, a Prefeitura de Campinas afirmou que nenhuma mulher em risco de morte por violência de gênero fica sem acolhimento na cidade. Segundo a administração municipal, a Casa Abrigo Sara-M não tem fila de espera e recebe todas as mulheres encaminhadas pela Delegacia de Defesa da Mulher, junto com os filhos.
O espaço tem 15 vagas e acolheu 78 mulheres e 97 crianças e adolescentes em 2025. A Prefeitura informou ainda que os demais casos de violência são atendidos pelos CREAS e pela rede municipal de proteção.
Trilhando Caminhos atua com mulheres vítimas de violência na região norte de Campinas. Foto: CPTI Reprodução
Para quem trabalha diariamente com essas histórias, os desafios também trazem aprendizados. Clarice conta que a equipe precisou rever expectativas sobre o tempo necessário para que uma mulher consiga romper uma relação violenta.
“A gente aprendeu que romper o ciclo de violência não é fácil. Não é fácil, igual as pessoas falam. E que a gente é tão frágil quanto as mulheres. A equipe está tão fragilizada quanto as mulheres em relação à política pública, em relação a fazer a rede caminhar. Mas também a gente aprendeu que as mulheres são muito potentes, que se houver políticas públicas e informações, elas conseguem pelo menos se fortalecer.”
Novos ciclos e perspectivas
Depois de 48 anos de casamento, Ilda pediu o divórcio. Hoje, sai de casa para trabalhar numa confecção, costura suas peças de artesanato e administra o dinheiro que recebe. Gessilene continua fazendo os pães que aprendeu com a prima. Entre uma encomenda e outra, percorre as ruas do bairro na bicicleta rosa que comprou com o próprio dinheiro.
Oficinas para geração de renda são uma forma de garantir autonomia às mulheres vítimas de violência. Foto: CPTI Reprodução
As histórias ajudam a compreender por que reconhecer a violência e encontrar condições para enfrentá-la são processos tao importantes, mas que podem levar anos.
Para a especialista em prevenção a violências da Fundação FEAC, é essencial que as mulheres saibam que existem pessoas e instituições que elas podem recorrer.
“Dizer que elas não estão sozinhas. Eu sei que às vezes é muito difícil. Há uma situação no geral de muito isolamento, mas tem pessoas, redes, instituições e pessoas que estão muito preocupadas em oferecer ajuda, de dar apoio. Então eu sei que é muito difícil estar numa situação de violência, mas vocês não estão sozinhas. E procurem ajuda.”
Foi ao encontrar esse apoio que Ilda começou a reconhecer os próprios direitos. Aos 63 anos, ela resume o que mudou na maneira de enxergar a vida.
“O CPTI, eu abri bem meus olhos, minha mente, abriu, sabe assim?”
Natural de Sorocaba, formada em Jornalismo pela Universidade de Sorocaba (Uniso) e pós-graduanda em Ciência Política pela Uninter. Repórter na CBN desde 2024.