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Satélites dão asas ao agronegócio e preparam voos mais altos com chegada da IA

Aprimorado na Unicamp e na Unesp, sensoriamento remoto prepara nova evolução
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Foto: Kevin Kamada/CBN Campinas

Cinco séculos ficaram para trás desde que uma carta enviada ao Rei de Portugal deu origem a um dos maiores mitos da nossa agricultura. Ao descrever a riqueza do patrimônio natural testemunhado pelos colonizadores europeus, um Pero Vaz de Caminha seria parafraseado de forma equivocada por um: “a terra onde, em se plantando, tudo dá”. Mas não, ele não disse isso.

Mais de 500 anos depois, nós sabemos que o solo tropical é mais ácido e mais arenoso que o de outras regiões do mundo, e nem mesmo a “terra roxa” de algumas áreas do interior de São Paulo é capaz de ser um milagre em si só para alguns cultivos. A pujança do agro é o resultado de um esforço concentrado que nasce da ciência, não necessariamente do solo, mas a que também está nos céus.

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Há quase 70 anos, a jornada da exploração espacial deu origem a uma das mais importantes invenções da humanidade: os satélites. Lá do alto, a quilômetros de distância, eles varrem o planeta Terra e têm a melhor visão do que acontece aqui embaixo. Pois é, quem seria capaz de dizer que um cultivo de sucesso depende do que vem do alto? Ah, se depende!

E o nome dele é Zoneamento Agrícola, uma política pública que nasceu em Campinas pelas mãos dos pesquisadores do Cepagri (Centro de Pesquisas Meteorológicas e Climáticas Aplicadas à Agricultura), da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas). Mais conhecido como “ZARC”, o relatório ajuda o produtor rural a diminuir os prejuízos no campo, além de orientar os pagamentos do seguro agrícola e o cálculo do crédito rural. Quem acompanha de perto essa história desde o começo é o engenheiro e pesquisador em Zoneamento Agrícola e Mudanças Climáticas, Jurandir Zullo Júnior.

“O Brasil é um país, uma condição ambiental bem diversificada, então tem capacidade de produzir muitas culturas, né? Desde culturas de clima temperado mais frio até culturas tropicais, né? Mas só que isso também tem, acaba tendo chance de sucesso ou não. Então, você pode ter determinadas regiões que produzem uma determinada cultura, só que com o risco muito alto. Então, isso que a gente também procura estudar, né? Qual a cultura mais adequada, o período de plantio. Tem essa frase, mas não é bem verdade, né? Assim, para ver efeitos econômicos, né, o que nós temos que trabalhar é com chance de sucesso de 80%, que é uma orientação do Ministério da Agricultura já há alguns anos, né?”, explica.

Esse estudo que o Jurandir está contando uniu o Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada), a Embrapa e o Ministério da Agricultura em 1996 para uma verdadeira força-tarefa. A conclusão foi cabal: a de que 95% das perdas agrícolas aconteciam por influência do clima, e 60% delas na fase mais crítica do cultivo, a floração e o enchimento dos grãos, seja pela falta de chuvas, seja pelo excesso delas.

“Na época, a identificação foi que 60% das perdas no Brasil todo, não era assim, ah, não, é no Nordeste, porque quando fala ‘água no Brasil’, sempre associa, né, falta de água no Nordeste. Não é. Esse levantamento indicou que 60% das perdas eram devidas à falta de água na fase crítica das culturas ou excesso na colheita. E isso é porque o plantio é errado, né? Ou era plantado por tradição, o agricultor não tinha informação, ou porque ele plantava logo após a primeira chuva. E a estação chuvosa, esse ano tá um pouco diferente, mas normalmente ela, nós temos vários meses, né, de abril até até setembro, sem chuva. Outubro começa a chuva, mas chove e para, chove e para, então essa intermitência acaba, é, prejudicando muito o plantio. Então, nossa recomendação sempre é que tenha pelo menos 40% de água no solo e uma perspectiva de continuar chovendo”, pontua.

De lá pra cá, a ciência avançaria mais um pouco, até descobrir uma dupla de crianças para lá de travessas: a La Niña e o El Niño. Só que de ingênuos, eles não têm nada, não. A oscilação da temperatura das águas do oceano Pacífico impacta e muito o que acontece aqui em terra firme. A mudança do regime de chuvas em algumas regiões abre espaço para um verdadeiro caos na regulação do clima.

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Só que quando o elemento mais valioso do campo, a água, deixa de cair, um irmão explosivo domina a história: o fogo.

Dados do Banco Mundial mostram que, em 2024, os incêndios provocaram um prejuízo de pelo menos R$ 48 bilhões no Brasil em áreas como agricultura, silvicultura e pecuária. Naquele ano, pelo menos 12 milhões de hectares em pastos no Brasil arderam em chamas; outros 4,4 milhões de hectares apenas em áreas agrícolas. Ainda em 2024, o relatório mostrou que o prejuízo com as safras alcançou os R$ 200 bilhões, cerca de 1,5% do PIB (Produto Interno Bruto) daquele ano.

Mas também é no céu que está um importante aliado: o chamado sensoriamento remoto, inicialmente feito por satélites e, hoje em dia, também pelos drones, vem permitindo que o agricultor tenha uma visão privilegiada do que acontece em grandes áreas. São muitas fotos em altíssima resolução, capazes de identificar de forma precoce uma suspeita de fogo para que ele seja apagado.

Foi na angústia da pesquisa de Mestrado na Unesp (Universidade Estadual Paulista) de Presidente Prudente que os hoje Doutores em Ciências Cartográficas Alisson do Carmo e Nariane Bernardo se uniram em 2019. Juntos, eles fundaram uma empresa especializada em coleta automatizada de dados por sensoriamento remoto. Eles contam que a inteligência artificial permitiu que o volume de processamento de fotos se tornasse ainda maior. Hoje, são 60 satélites e dezenas de drones no guarda-chuva da empresa, capazes de obter um detalhamento visual de até 30 centímetros do solo. Uma verdadeira constelação a serviço da saúde da lavoura.

“Ele tem toda uma triagem de confiabilidade dessa informação. Na verdade, a gente passa por um processamento interno muito rápido de entendimento de acurácia da posição desse foco, justamente para alertar quem precisa ser alertado, né, e não desperdiçar, é, alertas com pessoas e despender tempo de combate de fogo. Tem a questão do nível, né, da severidade desse fogo. Então, quanto tempo já tem essa queimada? É, ela está se alastrando? Ela está localizada? Como é que funciona tudo isso?”, comenta.

Muito além de um combate preciso do fogo, a ciência por trás da inteligência artificial no sensoriamento remoto permite identificar áreas com risco potencial de incêndio.

“E aí entra o produto de deslocamento de fogo, justamente pra gente entender se o foco, ele é, começou a queimar, permaneceu durante pouco tempo e já foi abatido, ou não, né, ele continua sequencialmente, ele se alastrando por pastagens, paisagens, principalmente nas regiões norte e nordeste que sofrem com mais seca, né, nesse período de El Niño. E também a gente entende que há toda uma dinâmica local ali de materiais comburentes. Então, se a pastagem tá seca, isso vai inferir num fogo mais rápido se alastrar. E essa velocidade do fogo, ela depende de N variáveis, desde temperatura, precipitação, cobertura, qual tipo da, da situação que se encontra ali o ecossistema. E uma vez que isso aconteceu, qual é o tamanho do estrago? A gente consegue ali metrificar, medir bonitinho a cicatriz. Então, por onde o fogo passou, o que queimou e o que restou queimado.”

O céu e a terra nunca estiveram tão próximos, mas essa conexão ainda precisa levar em conta um fator impreciso e, por que não dizer, imprevisível: o poder da natureza. Mas com estudo e análise de dados, dá para chegar numa fórmula quase exata sobre como ela se comporta em situações de fogo. No Cepagri da Unicamp, a pesquisadora Renata Ribeiro do Valle Gonçalves é uma das líderes de uma pesquisa que estuda modelos matemáticos combinando informações de focos de calor, vento e estado da vegetação para simular dinâmicas da propagação das queimadas.

“A gente faz justamente esse monitoramento dos focos de incêndio no Brasil inteiro com índices de vegetação. A agora é a pesquisa atual que a gente está fazendo em parceria com a UFABC (Universidade Federal do ABC), que vai fazer justamente a propagação, a gente vai fazer esses modelos para ver a propagação do incêndio, de que lado, para que ele está indo, qual a intensidade. A professora que está trabalhando é a Hengameh Raeisidehkordi, ela é iraniana, e ela já tem vários modelos de propagação de incêndio feitos em laboratório, e a ideia é fazer com que esses modelos sejam aplicados com dados reais. E aí é onde a gente entra com a nossa expertise dos dados de satélite, tanto de foco de incêndio como de vegetação, como vento”, explica.

Renata conta que o projeto atualmente analisa a dinâmica das queimadas no Pantanal Mato-grossense. Para ela, o grande desafio está na entrega das informações até o produtor rural.

“Hoje a gente tem técnicas, né? Tem ciência, a gente consegue fazer o monitoramento. Por exemplo, esse satélite GOES [dos Estados Unidos], fornece imagens a cada 10 minutos, um produto de incêndio a cada 1 hora. Juntando esses dados de satélites com os dados de estações meteorológicas em campo, com modelos principalmente de ar hoje, que a gente consegue fazer uma modelagem mais robusta, a gente consegue monitorar e prever essas situações”, pontua a pesquisadora.

É o futuro do agro que não passa pelo solo, mas pelo céu que oferece respostas para um futuro mais sustentável financeira e ecologicamente.

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Foto Kevin Kamada/CBN Campinas

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